Tribunal do Júri, vocação e realidade: Dr. Márcio Vieira fala sobre a formação e os desafios do promotor de justiça

🎙️ Podcast Mais que Jurídico

Entrevistador: Humberto Roriz
Convidado: Dr. Márcio Vieira Villas Boas Teixeira de Carvalho — Promotor de Justiça da 2ª Promotoria de Justiça do Novo Gama (GO)

No episódio do podcast Mais que Jurídico, o promotor de justiça Dr. Márcio Vieira Villas Boas Teixeira de Carvalho, titular da 2ª Promotoria de Justiça do Novo Gama (GO), compartilha uma trajetória marcada por vocação, superação e compromisso com a Justiça.
Em uma conversa franca com o entrevistador Humberto Roriz, o promotor aborda os desafios da carreira jurídica, a importância da base teórica na formação dos estudantes de Direito, a realidade intensa do Tribunal do Júri e a atuação do Ministério Público para além do viés punitivo.
A entrevista revela os bastidores da profissão, humaniza a função do promotor de justiça e oferece reflexões essenciais para quem sonha seguir carreira no mundo jurídico.

Humberto Roriz:

Dr. Márcio, é uma honra recebê-lo no Mais que Jurídico. Para começarmos, conte um pouco da sua trajetória: por que o Direito e, especificamente, o Ministério Público?

Dr. Márcio:
O prazer é todo meu. Desde cedo eu já tinha contato com o mundo jurídico, porque minha mãe é advogada. Eu via aquele cotidiano de estudos, debates, processos, e isso sempre me encantou. Quando entrei na faculdade, inicialmente me identifiquei mais com o Direito Civil, Processo Civil, contratos e Direito de Família.
Com o tempo, conhecendo melhor as carreiras jurídicas e convivendo com professores, juízes e promotores, fui me identificando profundamente com a atuação do Ministério Público. No final da graduação, tive a certeza de que era esse o caminho que me realizaria profissionalmente.


Humberto Roriz:

E como foi o período de preparação para o concurso?

Dr. Márcio:
Foi um caminho longo e exigente. No final da faculdade, enfrentei um desafio pessoal muito grande: descobri um linfoma e precisei interromper tudo para tratamento. Depois de superada essa fase, retomei os estudos com ainda mais foco.
Foram cerca de quatro a quatro anos e meio de preparação intensa, com muito estudo teórico, prática e disciplina. Sempre entendi que concursos para carreiras jurídicas são uma maratona, não um tiro curto. Sem base teórica sólida, não se chega longe.


Humberto Roriz:

O senhor sempre enfatiza a importância da base teórica. Por quê?

Dr. Márcio:
Porque ela sustenta tudo. Um concurso de magistratura ou Ministério Público exige muito mais do que decorar lei seca.
Na prova discursiva, na sentença ou na prova oral, você precisa pensar juridicamente, construir argumentos, lidar com situações que não estão prontas nos livros. Isso só é possível quando a teoria está bem internalizada.
A graduação é o melhor momento para essa construção. São cinco anos que fazem toda a diferença lá na frente.


Humberto Roriz:

Falando da carreira, onde o senhor iniciou sua atuação como promotor?

Dr. Márcio:
Comecei como promotor substituto em Campinorte e Mara Rosa, acumulando as duas comarcas. Foi um início muito intenso, com audiências praticamente todos os dias.
Depois, me tornei titular em Alvorada do Norte, em seguida atuei por cerca de dois anos em Alto Paraíso de Goiás, depois em Cristalina, e atualmente estou em Novo Gama, na área criminal, com atuação no Tribunal do Júri e no controle externo da atividade policial.


Humberto Roriz:

Essas comarcas são muito diferentes entre si. Como foi essa vivência?

Dr. Márcio:
Extremamente enriquecedora. Cada local tem uma dinâmica própria.
Alto Paraíso, por exemplo, tem uma realidade turística muito intensa, uma população flutuante grande, além de questões ambientais e sociais complexas. Já Novo Gama tem dinâmica de cidade grande, integrada ao entorno do Distrito Federal.
Essas experiências moldam não só o promotor, mas o ser humano. Você aprende a ouvir, a compreender realidades distintas e a adaptar sua atuação.


Humberto Roriz:

O Tribunal do Júri costuma ser um dos temas que mais despertam interesse. Algum caso marcou especialmente o senhor?

Dr. Márcio:
Todos os casos do Júri são marcantes, porque envolvem crimes contra a vida — o bem mais precioso que existe.
Mas os casos de feminicídio, especialmente quando envolvem gestantes ou crianças, são emocionalmente muito duros. Exigem preparo técnico, mas também equilíbrio emocional para conduzir o plenário com responsabilidade e humanidade.


Humberto Roriz:

Como o senhor lida com o desgaste emocional do Júri?

Dr. Márcio:
É muito intenso. A preparação começa dias antes e termina bem depois da sessão.
Por isso, cuidar da saúde mental é fundamental. Família, atividade física, hobbies, música e momentos de descanso são essenciais. Se a mente não estiver bem, o corpo e o trabalho também não estarão.


Humberto Roriz:

Há um mito de que promotores e advogados vivem em “guerra”. Isso é verdade?

Dr. Márcio:
Não. O que existe é um debate técnico de teses. Fora do plenário, deve haver respeito, diálogo e convivência institucional saudável.
O processo penal é um espaço de ideias. Cada parte cumpre seu papel, e quem decide é o Judiciário — ou, no Júri, os jurados.


Humberto Roriz:

Qual sua visão sobre instrumentos como o acordo de não persecução penal e o TAC?

Dr. Márcio:
São instrumentos fundamentais de resolutividade. Nem todo conflito precisa virar um processo longo.
Quando bem utilizados, esses mecanismos trazem respostas mais rápidas, eficientes e educativas, tanto no campo penal quanto no extrajudicial, como nas áreas ambiental, da saúde e do patrimônio público.


Humberto Roriz:

Que mensagem o senhor deixa para estudantes de Direito e candidatos às carreiras jurídicas?

Dr. Márcio:
Estudem com profundidade, construam uma base teórica sólida e entendam que a jornada é longa.
Mas também cuidem da saúde mental, valorizem as pessoas ao redor e não percam a humanidade.
A carreira jurídica exige dedicação, responsabilidade e estudo constante, mas também empatia, escuta e equilíbrio. No fim, cada processo representa uma vida — e isso nunca pode ser esquecido.


Humberto Roriz:

Para finalizar, há alguém que o senhor gostaria de indicar como futuro convidado do podcast?

Dr. Márcio:
Sim. Há excelentes colegas atuando em áreas menos conhecidas do Ministério Público, como infância, saúde e meio ambiente. Trazer essas perspectivas amplia o debate e enriquece a formação dos estudantes e da sociedade.

📣 Política do Bem: https://www.instagram.com/portalpoliticadobem/

📺 PODCAST COMPLETO: https://youtu.be/YZnEOB9Xt5g?si=gtDk-_upcuCbQiRn