Entre a toga e a escuta: a magistratura humanizada de Dra. Ilanna Lents


Dr. Humberto Roriz

Dra. Ilanna, é um prazer recebê-la no Mais que Jurídico. Para começarmos, conte um pouco da sua trajetória no Direito. Por que escolheu essa carreira?

Dra. Ilanna Lents:
A escolha pelo Direito veio muito cedo. Segundo minha mãe, aos cinco anos de idade, assistindo a uma novela que tinha uma cena de tribunal, eu perguntei quem era aquela mulher de toga preta. Quando ela explicou que era uma juíza e que sua função era solucionar conflitos quando as pessoas não conseguiam fazê-lo sozinhas, eu disse: “Eu quero ser isso”.
Ao longo da vida, essa vontade se fortaleceu. Sempre me incomodei muito com injustiças sociais, e minha família também sempre esteve ligada ao Direito. Meu avô foi advogado e atuou com assistência a pessoas encarceradas; tenho tios e tia que trabalharam no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Tudo isso consolidou essa vocação.


Dr. Humberto Roriz

E como foi o caminho até a magistratura?

Dra. Ilanna Lents:
Foi um caminho longo e exigente. Me formei em Direito em 2014, pela UFRJ, e tomei posse como juíza apenas em março de 2023. Foram quase dez anos até a aprovação. Nesse período, fiz a Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ), trabalhei como assessora de juiz federal no TRF da 2ª Região e estudei intensamente para concursos.
Não foram dez anos de estudo contínuo e perfeito, mas os últimos três anos antes da aprovação foram de dedicação total. A jornada de concursos exige renúncias, foco e disciplina, mas também equilíbrio emocional.


Dr. Humberto Roriz

A senhora chegou a ser aprovada em outros concursos, como Delegada de Polícia e Defensoria Pública. Isso influenciou sua formação?

Dra. Ilanna Lents:
Com certeza. Sempre estudei com foco na magistratura, mas também incluía matérias da Defensoria Pública, que é uma carreira com a qual me identifico muito. Acabei sendo aprovada para Delegada de Polícia e para outras carreiras, o que reforçou algo que acredito muito: a vocação não está apenas no cargo, mas na forma de servir.
Independentemente da função, meu objetivo sempre foi lidar com pessoas, conflitos e transformação social.


Dr. Humberto Roriz

Atualmente, a senhora atua tanto na Vara Criminal quanto na Vara de Família. Como lida com áreas tão distintas?

Dra. Ilanna Lents:
Apesar de parecerem áreas opostas, elas dialogam muito. A Vara Criminal é mais dura, lida com violência, homicídios, execução penal. Já a Vara de Família trata de conflitos íntimos, envolvendo crianças, vínculos afetivos, sucessões.
Curiosamente, a experiência no criminal me ajudou muito na família, especialmente na escuta qualificada, na empatia e na firmeza com humanidade. Eu me sinto realizada nas duas áreas, mas confesso que me identifico mais com o criminal, embora goste muito da família também.


Dr. Humberto Roriz

A senhora é coordenadora adjunta do Núcleo de Justiça Restaurativa do TJGO. Para quem ainda não conhece, o que é a Justiça Restaurativa?

Dra. Ilanna Lents:
A Justiça Restaurativa é um conjunto de princípios, métodos e práticas que propõem uma mudança de lentes em relação ao modelo tradicional punitivo. Ela não exclui o sistema tradicional, mas oferece uma alternativa para determinados casos.
O foco deixa de ser apenas a punição do ofensor e passa a incluir a vítima, o dano causado e a comunidade. Busca-se o diálogo, a responsabilização consciente e a reparação possível do dano, sempre com voluntariedade, consenso e confidencialidade.


Dr. Humberto Roriz

Ela pode ser aplicada em casos de violência doméstica?

Dra. Ilanna Lents:
Sim, em alguns casos específicos. Não é para todos os casos, e isso precisa ficar muito claro. Mas há situações em que a vítima não quer apenas a punição, e sim ser ouvida, compreendida e respeitada.
A Justiça Restaurativa permite que a vítima saia do lugar de invisibilidade e seja protagonista do processo, enquanto o ofensor é levado à conscientização e responsabilização real pelos danos causados.


Dr. Humberto Roriz

Quais são os maiores desafios de ser magistrada no entorno do Distrito Federal?

Dra. Ilanna Lents:
O principal desafio é o volume de processos, especialmente no criminal. Além disso, há uma enorme responsabilidade: cada decisão impacta diretamente a vida das pessoas.
Outro desafio é o tempo. Temos pouco tempo para muitos processos, e isso dificulta dar a atenção que gostaríamos a cada caso. Ainda assim, tento ser prática, menos formalista e mais humana, sempre que possível.


Dr. Humberto Roriz

Na Vara de Família, ouvir a criança pode mudar uma decisão?

Dra. Ilanna Lents:
Com certeza. Ouvir a criança é um divisor de águas. O que os pais dizem é importante, mas a criança precisa ser considerada. Muitas vezes, após ouvi-la, ajusto completamente a decisão que eu tinha em mente.
O processo é sobre a vida dela, não sobre a disputa dos adultos.


Dr. Humberto Roriz

Qual mensagem a senhora deixa para os jurisdicionados?

Dra. Ilanna Lents:
Que tenham tranquilidade e confiança. Para mim, nenhum processo é apenas papel. Cada caso representa uma história real. Tento exercer a magistratura com responsabilidade, humanidade e compromisso com as pessoas.


Dr. Humberto Roriz

E para os acadêmicos de Direito?

Dra. Ilanna Lents:
Não percam a chama da vocação. O caminho é difícil, cheio de obstáculos, mas é possível. Tenham metas, perseverem e lembrem-se sempre: o Direito é, acima de tudo, sobre servir pessoas. Quando sabemos por que escolhemos essa profissão, conseguimos seguir firmes, apesar das dificuldades.


Dr. Humberto Roriz

Para encerrar, quem a senhora indicaria para uma próxima entrevista no podcast?

Dra. Ilanna Lents:
Indico o promotor de Justiça Adardas Macias, que atua comigo na área de violência doméstica. Ele tem um olhar diferenciado, comprometido e humano, e acredito que contribuiria muito para o debate.

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