Da Linha de Frente ao Tribunal do Júri: A Trajetória, as Convicções e os Alertas de Dr. Diego Braga

🎙️ Podcast – Mais que Jurídico

Entrevistador: Humberto Roriz
Convidado: Dr. Diego Braga
Promotor de Justiça do Ministério Público de Goiás | Ex-Inspetor da Polícia Civil do RJ | Ex-Delegado da Polícia Civil de Minas Gerais | Ex-Agente da Polícia Federal

Humberto Roriz:

Dr. Diego, é uma honra recebê-lo no Mais que Jurídico. O senhor tem uma trajetória singular dentro da segurança pública e do sistema de Justiça. Para começar, conte um pouco da sua história e de como surgiu o caminho dos concursos públicos.

Dr. Diego Braga:
Agradeço muito o convite. É um prazer estar aqui. Minha trajetória nos concursos começou por necessidade familiar. Durante a faculdade, minha família enfrentou dificuldades financeiras e eu precisei trabalhar. Surgiu, então, um concurso para a Polícia Civil do Rio de Janeiro, que representava a chance de triplicar minha renda. Estudei de forma autodidata, com apostila comprada em banca de jornal, depois fiz um cursinho de reta final e consegui passar. Aquilo despertou em mim a busca por estabilidade e pela carreira pública.


Humberto Roriz:

E a partir daí sua carreira só avançou, passando por diferentes instituições.

Dr. Diego Braga:
Exatamente. Depois de ingressar como inspetor da Polícia Civil do Rio, comecei a estudar com foco na carreira de delegado. Passei para delegado da Polícia Civil de Minas Gerais, onde atuei cerca de um ano. Nesse período, fui chamado para a Polícia Federal como agente, o que me permitiu retornar ao Rio de Janeiro. Ali defini que só sairia para a magistratura ou para o Ministério Público. Após cerca de dez anos de estudos, fui aprovado no Ministério Público de Goiás, onde atuo com enorme satisfação até hoje.


Humberto Roriz:

Essa vivência prática na polícia influencia sua atuação como promotor?

Dr. Diego Braga:
Completamente. Ter vivido a realidade da rua, do local de crime, da delegacia, faz toda a diferença. Quando hoje recebo um processo no gabinete, sei exatamente o que aconteceu antes daquele PDF chegar até mim. Isso traz humanidade, senso crítico e maturidade para analisar cada caso.


Humberto Roriz:

O senhor atua bastante no Tribunal do Júri. Como lida com decisões absolutórias em casos que, tecnicamente, pareciam claros?

Dr. Diego Braga:
O Tribunal do Júri é soberano. Eu nunca recorri de uma decisão do júri, salvo se houvesse ilegalidade grave. Confio profundamente no julgamento popular. Já tive casos extremamente difíceis, inclusive um homicídio com provas robustas, em que a ré foi absolvida. Foi doloroso, fiquei noites sem dormir, mas sete jurados decidiram de forma diferente. Isso faz parte do sistema. O júri não julga apenas com técnica, mas também com valores humanos.


Humberto Roriz:

O senhor acredita que todos estamos sujeitos, em determinadas circunstâncias, a cometer um crime grave como o homicídio?

Dr. Diego Braga:
Sem dúvida. O homicídio é um crime profundamente humano. No calor da emoção, qualquer pessoa pode ultrapassar limites. É por isso que o júri existe: para julgar não só o fato, mas o contexto, a história e a humanidade envolvida.


Humberto Roriz:

Mudando de tema, o senhor tem se destacado como estudioso da inteligência artificial aplicada ao Direito. A IA é uma aliada ou uma ameaça?

Dr. Diego Braga:
A inteligência artificial é inexorável. Ou você aprende a surfar essa onda ou será engolido por ela. A IA não substitui o profissional do Direito, mas potencializa seu trabalho. Eu mesmo desenvolvi ferramentas para análise processual, execução penal e infância e juventude. Ela otimiza tarefas repetitivas e permite que o operador do Direito foque no que realmente importa: a decisão humana e estratégica.


Humberto Roriz:

Existe o risco do uso indevido da IA?

Dr. Diego Braga:
Com certeza. A IA pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Golpes, deep fakes e fraudes estão cada vez mais sofisticados. Por isso, é fundamental conhecer a tecnologia para se proteger dela. Ignorar a IA hoje é um erro grave.


Humberto Roriz:

O senhor também atua na área da infância e juventude. Como avalia a exposição de crianças nas redes sociais e casos recentes envolvendo influenciadores?

Dr. Diego Braga:
É extremamente preocupante. A violência sexual contra crianças causa danos irreversíveis. O Estado ainda não está preparado para dar a resposta adequada. Falta capacitação da rede de proteção, desde a escuta especializada até o acompanhamento psicológico. Como pai, reforço: a vigilância começa em casa. Informação e acompanhamento são essenciais.


Humberto Roriz:

E quanto aos precedentes jurídicos recentes e à relativização de garantias fundamentais?

Dr. Diego Braga:
Isso me preocupa profundamente. Direitos como devido processo legal, imparcialidade do juiz e duplo grau de jurisdição não podem ser relativizados conforme o caso ou a pessoa envolvida. Precedentes perigosos abalam a segurança jurídica. Hoje pode atingir alguém que você não gosta; amanhã pode ser você.


Humberto Roriz:

Para encerrar, que mensagem o senhor deixa para estudantes e jovens profissionais do Direito?

Dr. Diego Braga:
Resiliência. Foram dez anos de estudo até alcançar o Ministério Público. A carreira jurídica exige preparo, humildade e humanidade. Conheçam a realidade, estudem tecnologia, respeitem os direitos fundamentais e nunca percam o senso crítico. O Direito não é uma ciência exata — ele exige equilíbrio.


Humberto Roriz:
Dr. Diego, foi uma verdadeira aula. O Mais que Jurídico agradece sua presença e espera recebê-lo novamente em breve.

Dr. Diego Braga:
Eu que agradeço. Foi um prazer enorme. Contem comigo sempre.

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