Entrevistador: Humberto Roriz
Convidada: Dra. Isabela — Juíza de Direito do Tribunal de Justiça de Goiás
Titular da Vara Cível, Infância e Juventude da Cidade Ocidental
Diretora do Foro de Minaçu e coordenadora do 9º CEJUSC Regional
Em um diálogo profundo, sensível e necessário, o Mais que Jurídico recebe a Dra. Isabela, juíza de Direito do Tribunal de Justiça de Goiás, para uma conversa que vai muito além dos processos e das decisões judiciais. Com franqueza e humanidade, a magistrada compartilha os desafios de sua trajetória até a magistratura, os impactos emocionais da profissão, a realidade do Judiciário no interior e sua atuação firme no enfrentamento à violência doméstica. Uma entrevista que revela a pessoa por trás da toga e reafirma a Justiça como instrumento de transformação social.
Humberto Roriz:
Dra. Isabela, é uma honra recebê-la aqui no Mais que Jurídico. Para começar, gostaria que a senhora contasse um pouco sobre os desafios de ingressar na magistratura. Sabemos que não é um caminho fácil, especialmente para alguém tão jovem. Como foi essa trajetória?
Dra. Isabela:
Minha trajetória até a magistratura foi um pouco tortuosa. Inicialmente, eu estudava para a Procuradoria e cheguei a prestar diversos concursos nessa área. Somente depois fui amadurecendo a ideia de seguir a magistratura. Durante um bom tempo, eu prestava concursos tanto para juiz quanto para o Ministério Público, porque as matérias são muito parecidas.
Naquela época, eu ainda não tinha a clareza que tenho hoje. Atualmente, não me vejo exercendo outra profissão. Sou muito grata por não ter sido aprovada no Ministério Público, porque hoje sei que não seria feliz como promotora. Apesar das muitas atribuições e da rotina extremamente exigente, eu sou profundamente realizada com o que faço.
Humberto Roriz:
A senhora menciona a carga emocional e o cansaço da profissão. Como é lidar diariamente com problemas tão sensíveis?
Dra. Isabela:
É desafiador. A gente acorda cedo, dorme tarde, absorve muitas dores que não são nossas — mas acabam se tornando. É quase impossível não se envolver emocionalmente. Existem demandas que nos fazem refletir como seres humanos.
Apesar disso, ver pequenas diferenças que conseguimos fazer na vida das pessoas é algo que me engrandece. Isso dá sentido a todo o esforço. É por isso que, mesmo cansada, continuo feliz na magistratura.
Humberto Roriz:
A senhora quase assumiu um cargo como procuradora do Município de Fortaleza, com uma realidade completamente diferente da que vive hoje em Goiás. Como foi essa decisão?
Dra. Isabela:
Esse foi o primeiro concurso que prestei, e ele ficou suspenso por conta da pandemia. Quando fui chamada, eu já era juíza. Confesso que pensei bastante. Fortaleza representa praia, litoral, uma vida completamente diferente.
Mas quando imaginei acordar sem as atribuições que tenho hoje, percebi que não seria feliz. A magistratura me escolheu, e eu escolhi ficar. Goiás foi uma surpresa extremamente positiva na minha vida.
Humberto Roriz:
A senhora saiu de Belo Horizonte, uma grande capital, para atuar no interior de Goiás. Isso foi um choque?
Dra. Isabela:
Sem dúvida. Sempre fui muito cosmopolita, gosto de cidade grande, movimento, barulho. Quando cheguei a Goiás, Goiânia me lembrou muito Belo Horizonte — quase um “karma”, como eu brincava.
Já o interior foi um grande aprendizado. Hoje, sou uma pessoa completamente diferente da Isabela que ingressou na magistratura. Cresci muito como profissional e como ser humano.
Humberto Roriz:
Falando sobre o aspecto humano: como a magistrada lida emocionalmente com ações sensíveis, como guarda, curatela ou infância?
Dra. Isabela:
O magistrado precisa ser imparcial, mas não é neutro. Quando um caso se aproxima de experiências pessoais, é impossível não se emocionar. O desafio é segurar a emoção no momento da decisão.
Eu sempre tento exercer a alteridade: me colocar no lugar do outro. Pergunto a mim mesma como eu gostaria que fosse decidido se fosse alguém da minha família. Não sou Deus, não acerto sempre, mas tento fazer o melhor possível.
Humberto Roriz:
Qual foi a maior lição que a magistratura lhe ensinou sobre as pessoas — e sobre si mesma?
Dra. Isabela:
A magistratura me mostrou um lado muito duro da humanidade, mas também reforçou minha fé nas pessoas. Ela nos tira da nossa bolha. Muitas vezes reclamamos de forma indevida, sem perceber o tamanho da dor do outro.
É uma profissão de grande sobrecarga emocional. Trabalhamos o dia inteiro com problemas alheios e, à noite, ficamos sozinhos com os nossos. É preciso aprender a lidar com isso.
Humberto Roriz:
Mesmo com essa carga, a senhora obteve resultados expressivos, como os selos Ouro e Diamante nas comarcas onde atua. O que isso representa?
Dra. Isabela:
Esses selos representam trabalho em equipe. Nada disso seria possível sem servidores comprometidos. Eu valorizo muito esse reconhecimento porque ele motiva, dá sentido ao esforço coletivo e torna o ambiente mais leve.
Comemorar juntos, compartilhar pequenos momentos, cria um sentimento de pertencimento que faz toda a diferença.
Humberto Roriz:
E fora do fórum, quem é a Isabela? Como a senhora desanuvia dessa carga emocional?
Dra. Isabela:
Hoje faço corrida. A atividade física é essencial. Quando estou muito cansada, vou para Belo Horizonte, fico na casa dos meus pais e assisto séries.
Sou fã de Friends. A série me lembra que a vida não sai como planejamos, mas ainda assim pode ser leve, divertida e cheia de significado.
Humberto Roriz:
A senhora se tornou uma referência na atuação contra a violência doméstica. Como surgiu esse envolvimento?
Dra. Isabela:
Começou na Vara Criminal de Minaçu. No início, eu não tinha ligação com o tema. Fui estudar, ouvir e percebi que eu mesma já havia sido vítima de violência psicológica.
Se eu, uma mulher forte e consciente, passei por isso, imagine quem não teve as mesmas oportunidades. A partir daí, entendi que faltava alteridade. Precisamos nos colocar no lugar dessas mulheres.
Humberto Roriz:
E qual a importância dos grupos reflexivos nesse contexto?
Dra. Isabela:
Eles são fundamentais. Tanto para mulheres quanto para homens. Os grupos permitem falar, elaborar, compreender padrões de violência que muitas vezes são vistos como “normais”.
É um trabalho profundo, humano e transformador. Não se trata de reconciliação, mas de conscientização, autonomia e ruptura de ciclos de violência.
Humberto Roriz:
Há quem diga que os índices de violência doméstica aumentaram. Qual sua avaliação?
Dra. Isabela:
Acredito que houve muita subnotificação no passado. Hoje, mais mulheres têm coragem de denunciar, mas ainda há muitas que não confiam no Estado.
Vivemos uma sociedade menos tolerante, mais agressiva, emocionalmente adoecida. É um problema complexo, que exige atuação conjunta do Judiciário, Executivo, Legislativo e sociedade civil.
Humberto Roriz:
Para encerrar, qual mensagem a senhora deixaria?
Dra. Isabela:
Se conseguirmos salvar uma vida, todo o esforço já valeu a pena. A mudança vem pelo diálogo, pela empatia e pelo trabalho conjunto. Ainda há muito a fazer — e precisamos fazer juntos.
📣 Política do Bem: https://www.instagram.com/portalpoliticadobem/
✨ Camila Pasquarelli: https://www.instagram.com/pasquarelli.psi/
📺 PODCAST COMPLETO: https://youtu.be/PlV_gRO2lYE?si=gXX-nBvyhJdrqIxi










