Entrevistadora: Ingrid Pitman
Convidadas: Ana Paula Marra, Ana Carolina Torrely e Jaqueline Corrêa
Em entrevista, três mães contam como o diagnóstico dos filhos mudou suas vidas, explicam os sintomas da doença e lideram uma mobilização nacional por direitos, inclusão escolar e acesso à bomba de insulina.
Receber o diagnóstico de diabetes tipo 1 em um filho é como ter o chão arrancado sob os pés. Medo, culpa, insegurança e uma rotina de vigilância 24 horas passam a fazer parte do cotidiano da família.
Mas, para Ana Paula Marra, Ana Carolina Torrely e Jaqueline Corrêa, a dor virou força.
Conhecidas como “mães pâncreas” — porque assumem manualmente a função que o pâncreas deixou de exercer — elas transformaram a própria experiência em acolhimento a outras famílias e em luta por políticas públicas, inclusão escolar e reconhecimento do diabetes tipo 1 como deficiência legal.
Nesta entrevista, elas falam sobre sintomas, desafios, tecnologia, preconceito, escola e a batalha no Congresso Nacional.
Ingrid: Para começar, o que é ser uma “mãe pâncreas”?
Ana Carolina:
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. O pâncreas para de produzir insulina, que é um hormônio vital. Sem insulina, a pessoa morre. Então alguém precisa assumir essa função. Nós, mães, passamos a calcular comida, aplicar insulina, medir glicemia, vigiar dia e noite. A gente literalmente vira o pâncreas do filho.
Ingrid: Como foi o diagnóstico para cada uma de vocês?
Ana Paula:
Meu filho tinha 3 anos. Começou a beber muita água, fazer muito xixi, comer demais. Eu via os sintomas, mas não ligava os pontos. Quando ele ficou prostrado, joguei no Google. Apareceu diabetes tipo 1. Fui ao hospital e a glicemia deu 569. Ele já estava em cetoacidose. Foi um choque. Eu tinha um bebê de 20 dias em casa. Foi devastador.
Ana Carolina:
O Rafael tinha apenas 1 ano. Teve sede excessiva, muita urina e ficou molinho. Quando chegamos ao hospital, ele já estava em cetoacidose. A gente se pergunta: “onde eu errei?”. A culpa vem forte. Depois a gente entende que não é culpa de ninguém.
Jaqueline:
O Levi tinha 2 anos. Ele ficou quietinho, sem energia. Passei por quatro hospitais e ninguém furou o dedo dele. Só no quarto hospital descobriram: glicemia acima de 1000. Foi por pouco. Se demorasse mais, poderia ter sido fatal.
Ingrid: Quais são os principais sintomas que os pais precisam observar?
Ana Carolina:
Isso é fundamental. Pode salvar vidas.
- muita sede
- urinar excessivamente
- fome exagerada
- perda de peso
- cansaço
- visão turva
- hálito adocicado/frutado
- sonolência ou prostração
Se houver suspeita: fure o dedo e meça a glicemia imediatamente.
Jaqueline:
Muitas crianças morrem por falta de diagnóstico. Um exame simples resolve.
Ingrid: O diabetes tipo 1 é diferente do tipo 2?
Ana Paula:
Completamente. Não tem relação com alimentação ou estilo de vida. É autoimune. A pessoa simplesmente para de produzir insulina. Por isso a confusão é perigosa. Dieta sozinha não resolve. Insulina é obrigatória.
Ingrid: Crianças com diabetes podem comer doce?
Ana Carolina:
Podem sim. Elas não têm intolerância alimentar. O que muda é que precisam aplicar insulina para cobrir o carboidrato. O maior erro é tratar como “proibido”. Isso gera trauma e até compulsão escondida depois.
Ingrid: Como funciona a bomba de insulina?
Jaqueline:
É o padrão-ouro do tratamento.
Ela libera microdoses de insulina 24 horas por dia automaticamente. Conectada ao sensor de glicose, aumenta ou reduz a dose conforme a necessidade. Diminui muito o risco de hipo e hiperglicemia e melhora a qualidade de vida.
Ana Paula:
É infinitamente menos traumático do que furar a criança 7 ou 8 vezes por dia.
Ingrid: Todas as crianças têm acesso a essa tecnologia?
Jaqueline:
Infelizmente, não. No Distrito Federal existe programa público, mas com critérios rígidos. No resto do país, a maioria das famílias precisa recorrer à Justiça. É caro demais.
Ingrid: Vocês também falaram de problemas na escola. O que acontece?
Ana Carolina:
Muitas escolas recusam matrícula ou impõem condições absurdas: não deixam aplicar insulina, não permitem glicosímetro, não têm profissional treinado. Isso é negar o direito à educação.
Ana Paula:
Por isso lutamos para que o diabetes tipo 1 seja reconhecido como deficiência. Assim a escola é obrigada a se adaptar, não a família.
Ingrid: Falem sobre essa luta política.
Jaqueline:
Fundamos o Instituto Diabetes Brasil. Conseguimos aprovar no Congresso o reconhecimento do diabetes tipo 1 como deficiência. Infelizmente houve veto presidencial. Agora lutamos para derrubar o veto.
Isso garante:
- inclusão escolar
- prioridade em políticas públicas
- acesso a tratamento
- proteção legal às famílias
Quem quiser participar pode acessar: institutodiabetesbrasil.com.br
Ingrid: Que mensagem vocês deixam para as mães que receberam o diagnóstico agora?
Ana Carolina (emocionada):
Vocês vão voltar a sorrir. Parece o fim do mundo, mas não é. A gente aprende, se fortalece e cria uma rede. Vocês não estão sozinhas.
Ana Paula:
Nunca duvidem da força de uma mãe pâncreas. A gente move montanhas.
Jaqueline:
Informação salva vidas. Procurem apoio. Não enfrentem isso sozinhas.
O diabetes tipo 1 exige disciplina, tecnologia, apoio psicológico e políticas públicas. Mas, acima de tudo, exige amor e resistência.
Essas mães mostram que, quando o pâncreas falha, o coração assume — e luta por todos.
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