(Imagem gerada por inteligência artificial)
A escalada dos combustíveis e o impacto no cotidiano
O aumento expressivo nos preços da gasolina e do diesel voltou ao centro do debate nacional em 2026. Impulsionada por tensões no Oriente Médio — especialmente pela escalada envolvendo o Irã e os riscos ao fluxo global no Estreito de Ormuz — a alta do petróleo tem impactado diretamente o bolso do consumidor brasileiro.
Além do encarecimento, surgem relatos de desabastecimento em diversas regiões do país. Municípios do Rio Grande do Sul, por exemplo, já adotaram medidas emergenciais diante da escassez de diesel, afetando transporte público, obras e até serviços essenciais. O setor agrícola também sente os efeitos, o que pode pressionar ainda mais os preços dos alimentos nos próximos meses.
O cenário atual remete a momentos críticos recentes, mas com agravantes políticos e estruturais que ampliam a sensação de instabilidade.

(Navios-tanque atracados na Ilha de Kharg, uma importante instalação petrolífera localizada no Irã, dentro do Golfo Pérsico. A região faz parte do Estreito de Ormuz, uma das passagens marítimas mais estratégicas e movimentadas do mundo para o transporte de energia. Foto: National Geographic)
O debate sobre impostos e a comparação com 2022
A discussão sobre a redução de impostos sobre combustíveis voltou à tona, reacendendo comparações inevitáveis com o período eleitoral de 2022.
Naquele momento, o governo federal adotou medidas agressivas para conter os preços, como a tentativa de zerar tributos federais, pressionar estados pela redução do ICMS e aprovar leis emergenciais no Congresso para limitar a alíquota do imposto.
Hoje, o tema retorna sob uma nova perspectiva. Embora medidas como a zeragem do PIS/Cofins sobre o diesel tenham sido retomadas, críticas surgem sobre a falta de uma estratégia mais ampla e eficaz em 2026.
A comparação entre os dois períodos expõe não apenas divergências de abordagem, mas também o uso recorrente da pauta como instrumento político em anos eleitorais.
Mais do que uma disputa ideológica, o dilema permanece estrutural: como aliviar o impacto imediato ao consumidor sem comprometer o equilíbrio fiscal?

(Vinicius Torres Freire é jornalista da Folha de S.Paulo, onde escreve uma coluna sobre economia e política. Na imagem, um print de matérias do jornalista que fazem um paralelo entre o tratamento dado a Bolsonaro em 2022 e a Lula em 2026)
Dependência estrutural: o gargalo do refino e dos fertilizantes
Um dos principais entraves segue sendo a vulnerabilidade da cadeia de combustíveis no Brasil. Apesar de ser um grande produtor de petróleo, o país ainda depende da importação de derivados, especialmente diesel, devido à limitação de sua capacidade de refino.
Esse descompasso cria distorções: quando os preços internacionais sobem, importadores reduzem a oferta, e o mercado interno sofre com escassez e aumento de preços.
A situação se agrava no agronegócio, que também depende fortemente de fertilizantes importados. Em um cenário global tensionado, essa dependência expõe fragilidades que vão além do setor energético e afetam diretamente a segurança alimentar e a inflação.

(Fevereiro de 2022: a pauta central da reunião entre Bolsonaro e Putin foi a crise dos fertilizantes. Foto: Oficial Kremlin/PR)
O Cenário de 2022: entre a crise de saúde global e os impactos da guerra no Brasil
Em 2022, o Brasil enfrentou uma combinação explosiva de fatores: pandemia e guerra.
A pandemia de Covid-19 provocou uma ruptura significativa nas cadeias globais de produção e logística. Medidas como lockdown (é uma medida restritiva obrigatória que proíbe a circulação de pessoas em locais públicos e suspende atividades não essenciais, permitindo apenas serviços essenciais), restrições de circulação e fechamento de portos e fábricas reduziram a produção e dificultaram o transporte de mercadorias entre países. Como consequência, houve escassez de insumos, matérias-primas, peças industriais e produtos finais em diversos setores da economia, incluindo gargalos logísticos e inflação acumulada.
A política de preços da Petrobras, baseada na paridade de importação (PPI), fazia com que cada alta no mercado internacional fosse rapidamente repassada ao consumidor. A guerra entre Rússia e Ucrânia, por exemplo, desorganizou o fornecimento global de energia e levou o barril de petróleo a níveis históricos, chegando ao pico de US$ 139.
Diante desse cenário, o governo adotou uma postura de enfrentamento direto. Houve tentativas de zerar impostos por decreto, forte pressão sobre governadores e aprovação de medidas emergenciais para limitar o ICMS.
Embora parte dessas ações tenha sido limitada por questões legais e fiscais, o impacto político foi significativo: o país registrou três meses consecutivos de deflação às vésperas da eleição.

(Setembro de 2022, Jair Bolsonaro, então presidente do Brasil, em São Paulo, destacando a queda no preço da gasolina em meio aos efeitos da pandemia e ao conflito entre Rússia e Ucrânia)
Tensões institucionais e limites de atuação de Jair durante a crise
Outro ponto de forte tensão institucional naquele período foi o embate entre o Executivo e o Judiciário.
Parte das medidas adotadas pelo governo enfrentou resistência no Supremo Tribunal Federal (STF), que barrou iniciativas consideradas incompatíveis com a legislação fiscal e o pacto federativo. Paralelamente, decisões da Justiça Eleitoral também limitaram ações e comunicações do governo durante o período eleitoral, sob o argumento de possível uso da máquina pública para promoção política.
Aliados do então presidente contestaram essas decisões, sustentando que as medidas tinham caráter emergencial diante da crise energética e não configuravam vantagem eleitoral indevida, o que intensificou o clima de confronto entre os poderes naquele momento.
O paralelo de 2026: o dilema energético e político
Quatro anos depois, o Brasil vive uma espécie de “déjà vu” geopolítico. A crise envolvendo o Irã e o risco ao transporte global de petróleo voltaram a pressionar os preços internacionais, com o barril Brent superando novamente a marca dos US$ 110.
No entanto, a resposta à crise apresenta diferenças importantes.
O fator eleitoral permanece central. Assim como em 2022, a alta dos combustíveis influencia diretamente a popularidade do governo. Porém, a estratégia atual enfrenta limitações: a tentativa de conter reajustes dentro da Petrobras, após o fim formal do PPI, gera desconfiança no mercado e aumenta o risco de desabastecimento.
Há também uma mudança de discurso. O governo atual critica decisões passadas, como a privatização de ativos no setor de distribuição e a venda de refinarias, mas encontra dificuldades para implementar soluções de curto prazo que reduzam efetivamente os preços ao consumidor.
Além disso, cresce a crítica sobre uma demora na reação por parte do governo federal em 2026. Embora medidas pontuais tenham sido adotadas, como a redução de tributos sobre o diesel, a gasolina continua pressionada, reforçando a percepção de resposta insuficiente diante da crise.
Diante desse cenário, segue abaixo um paralelo claro e factual entre 2022 (Bolsonaro) e 2026 (Lula) com foco exclusivo no que cada governo fez durante a crise de combustíveis e no reflexo direto no bolso e no dia a dia do povo brasileiro:
A. O que Bolsonaro fez em 2022 (guerra na Ucrânia + pandemia)
- Medidas principais anunciadas de março a julho de 2022):
- Zerou PIS/Cofins federais sobre diesel, gasolina e gás de cozinha;
- Limitou o ICMS estadual em 17-18% (Lei Complementar 194/2022);
- Aprovou a PEC Kamikaze (estado de emergência): furou o teto de gastos, criou Auxílio Brasil de R$ 600, vale-gás 100%, auxílio caminhoneiro (R$ 1.000/mês) e auxílio taxista.
Coisas que refletiram diretamente no povo:
- (Dados ANP e Ministério da Economia, 2022):
- Preço da gasolina caiu de pico de R$ 7,39 (junho) para R$ 4,80–R$ 5,10 em outubro/dezembro (queda de mais de 30% em poucos meses);
- Diesel também teve redução significativa (alívio para caminhoneiros e frete);
- Inflação deu uma “respirada”: o IPCA registrou deflação em alguns meses; o custo de alimentos e transporte parou de subir tanto;
- Caminhoneiros e transportadores sentiram alívio imediato no frete: produtos no supermercado ficaram mais baratos ou pararam de encarecer;
- Famílias de baixa renda tiveram ganho extra via Auxílio Brasil e vale-gás (benefício direto no bolso).
- Postos foram obrigados a mostrar preço “antes e depois” da redução do ICMS: o consumidor via na hora o desconto.
Resultado prático em 2022: o brasileiro sentiu o preço cair na bomba em ano eleitoral.
Foi a medida mais visível e popular do pacote.

(Presidente Bolsonaro em motociata pelo Agreste de Pernambuco, 2021. Foto: Marcos Corrêa/PR)
B. O que Lula fez em 2026 (tensão/guerra no Irã)
- Medidas anunciadas em 12 de março de 2026:
- Zerou PIS/Cofins sobre o diesel (redução estimada de R$ 0,32/litro);
- Criou subvenção (subsídio direto) de R$ 0,32/litro para produtores e importadores;
- Total prometido: R$ 0,64 de alívio por litro;
- Imposto de exportação sobre petróleo cru + força-tarefa da ANP contra “aumentos abusivos”.
Coisas que refletiram diretamente no povo:
- (Dados ANP até 20-24 de março de 2026):
- Diesel subiu 19–20,4% desde o início do conflito (de R$ 6,03 para R$ 7,26 de média nacional). Continua subindo mesmo depois do anúncio;
- Gasolina subiu 5,5–5,9% no mesmo período (média R$ 6,65).
- O alívio prometido de R$ 0,64 não chegou à bomba na prática: postos e distribuidoras não repassaram integralmente; Petrobras ainda reajustou o preço na refinaria em R$ 0,38;
- Frete encareceu: alimentos e mercadorias já começaram a subir no supermercado (efeito cascata sentido pelo consumidor final);
- Risco real de desabastecimento: importações de diesel caíram forte porque o subsídio foi considerado insuficiente por importadores;
- Custo aos cofres públicos: R$ 30 bilhões até o fim de 2026 (renúncia fiscal + subsídio). Isso pode gerar pressão futura em juros, inflação ou corte em outros gastos públicos.
Resultado prático em 2026: O povo ainda não sentiu redução, sentiu alta continuada no posto e no custo de vida.

(Desfile de 7 de Setembro de 2023 foi marcado por baixa adesão. Créditos: Agência Brasil/EBC
Caso em 2022: 7 de Setembro e a decisão do TSE
O 7 de Setembro de 2022, marcado pelo Bicentenário da Independência, tornou-se um dos episódios mais emblemáticos da tensão entre política e instituições durante o período eleitoral. À época, o então presidente Jair Bolsonaro participou dos eventos oficiais em Brasília e no Rio de Janeiro, que foram acompanhados por grandes manifestações populares e discursos com forte tom político, incluindo críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Judiciário.
Diante desse cenário, partidos de oposição, como o União Brasil e a coligação do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegando abuso de poder político e uso indevido da máquina pública, ao misturar um evento oficial de Estado com atos de campanha.
Em setembro de 2022, o TSE decidiu, por unanimidade, proibir a campanha de Bolsonaro de utilizar imagens e vídeos das celebrações de 7 de Setembro em propagandas eleitorais na televisão e no rádio. A Corte entendeu que a associação entre um evento institucional e a promoção de candidatura violava o princípio da isonomia entre os candidatos e configurava uso indevido da estrutura estatal para fins eleitorais.
A decisão não impediu a realização dos atos nem a participação popular, mas limitou exclusivamente o uso do material nas peças de campanha. Ainda assim, o episódio aprofundou o embate político, com aliados de Bolsonaro classificando a medida como censura, enquanto críticos apontaram a politização de uma data cívica em pleno período eleitoral.
Posteriormente, em 2023, o TSE voltou a analisar o caso no contexto de outras ações e considerou o episódio como um dos elementos que configuraram abuso de poder político, decisão que contribuiu para a condenação do ex-presidente à inelegibilidade por oito anos.
Embora os atos tenham reunido grandes públicos em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília — com estimativas de centenas de milhares de pessoas — não há consenso sobre o tamanho exato das manifestações. Para apoiadores, tratou-se de um dos maiores eventos políticos recentes.

(Imagem do ato de 7 de setembro de 2022 na propaganda eleitoral de Bolsonaro. Foto: Reprodução)
Caso em 2026: Desfile da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói homenageando Lula
O Carnaval de 2026 entrou no centro do debate político após uma escola de samba do Grupo Especial levar à Marquês de Sapucaí o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, uma homenagem à trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, desde a infância até a Presidência da República. O próprio presidente acompanhou o desfile em um camarote institucional, o que ampliou a repercussão do evento no cenário político nacional.
A discussão ganhou força também pelo volume de recursos públicos envolvidos. Por meio da Embratur, vinculada ao governo federal, foram destinados cerca de R$ 1 milhão para cada uma das 12 escolas do Grupo Especial, totalizando R$ 12 milhões — valor que integra o modelo anual de apoio ao Carnaval. Além disso, há aportes de governos estaduais e prefeituras, como no caso do Rio de Janeiro e de Niterói, que, somados, podem elevar o orçamento de uma escola para algo entre R$ 9 milhões e R$ 10 milhões. A escola responsável pelo enredo ainda tentou captar recursos via Lei Rouanet, com autorização de até R$ 5,1 milhões, mas não conseguiu atingir esse montante.
Diante desse contexto, partidos de oposição, como Novo, PL e Missão, acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a suspensão do desfile. As siglas alegaram que o enredo poderia configurar:
- propaganda eleitoral antecipada,
- uso indevido de recursos públicos e
- abuso de poder político e econômico em ano eleitoral.
Em decisões tomadas entre fevereiro e março de 2026, o TSE rejeitou, por unanimidade, os pedidos de liminar que buscavam impedir a apresentação. A Corte entendeu que barrar o desfile antes de sua realização configuraria censura prévia, o que é vedado pela Constituição. Além disso, os ministros destacaram que o Carnaval é uma manifestação cultural e artística protegida pela liberdade de expressão, e que, naquele momento, não havia comprovação de pedido explícito de voto ou de que o enredo tivesse caráter exclusivamente eleitoral.
Outro ponto considerado foi o fato de que os repasses federais, via Embratur, foram feitos de forma igualitária a todas as escolas, sem direcionamento específico à agremiação que homenageou o presidente.
Apesar da decisão, o caso não foi encerrado. O próprio TSE deixou claro que o mérito da questão — ou seja, a eventual configuração de propaganda irregular ou abuso de poder — poderia ser analisado posteriormente, com base no que efetivamente fosse apresentado na avenida, na repercussão nas redes sociais e no uso das imagens após o desfile. Já em março, um novo pedido de investigação foi apresentado por partidos de oposição, mas acabou rejeitado pelo corregedor da Corte por questões processuais, sem análise aprofundada do conteúdo.

(Na imagem, o último carro alegórico da Acadêmicos de Niterói, com uma estátua gigante de Lula em 15 de fevereiro de 2026. Crédito: Poder360)
Episódios, paralelos e futuro energético
A comparação entre os episódios de 2022 e 2026 tem alimentado um debate cada vez mais presente no ambiente político brasileiro: a percepção de assimetria no tratamento dado por instituições, mídia e atores políticos a diferentes governos em contextos semelhantes. Para setores da oposição, o contraste é evidente. Enquanto, em 2022, decisões e sinalizações institucionais foram interpretadas como mais restritivas às ações do então presidente Jair Bolsonaro — especialmente em temas sensíveis durante o período eleitoral —, em 2026, episódios envolvendo o governo Lula têm sido vistos por críticos como exemplos de maior flexibilidade interpretativa.
A crise econômica de 2026 reforça um diagnóstico recorrente: o Brasil continua vulnerável a choques externos no setor energético.
Sem avanços consistentes na ampliação da capacidade de refino, na diversificação da matriz energética e na redução da dependência de insumos importados, o país permanece exposto a ciclos de instabilidade.
Mais do que uma questão conjuntural, o desafio é estrutural. E, em ano eleitoral, essa discussão ganha contornos ainda mais sensíveis, misturando economia, política e estratégia de longo prazo em um cenário de alta complexidade.
📍 Referência
▶️ Vídeo de Bolsonaro em São Paulo – 2022: https://www.youtube.com/watch?v=ouc1KmzfWKk&t=10s
▶️ Garantia de Fertilizantes: https://www.youtube.com/watch?v=Kl6I9y_roOc
▶️ (Os paralelos entre os anos de 2022 e 2026 foram baseados em dados da ANP — Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis —, do Ministério da Economia e em relatórios oficiais da época.)









