(Imagem gerada por inteligência artificial)
Uma série de novos documentos tornados públicos trouxe luz a um dos episódios mais controversos do sistema financeiro recente: a crise e posterior liquidação do Banco Master. As informações, reveladas a partir de relatórios do Banco Central e processos do Tribunal de Contas da União (TCU), ajudam a reconstruir a cronologia dos fatos, apontando alertas prévios, tentativas de socorro e disputas políticas em torno do caso.
Alertas do Banco Central ainda em 2024
De acordo com os documentos divulgados, o Banco Central já havia identificado sinais claros de deterioração financeira no Banco Master ainda no primeiro semestre de 2024.
Relatórios indicam que, entre março e junho daquele ano, a autoridade monetária:
- Enviou ofícios alertando sobre problemas na gestão de liquidez;
- Realizou reuniões presenciais com representantes da instituição;
- Monitorou de perto a evolução dos indicadores financeiros do banco.
O ponto crítico ocorreu em 6 de junho de 2024, quando o banco deixou de ter liquidez suficiente para cobrir seus compromissos de curto prazo — especialmente os vencimentos de CDBs dentro de uma janela de 30 dias. A partir desse momento, o risco de insolvência se tornou concreto.
A tentativa de operação com a Caixa Econômica Federal
Poucos dias após a deterioração da liquidez, em 13 de junho de 2024, o Banco Master iniciou tratativas com a Caixa Econômica Federal para uma operação considerada atípica e arriscada.
O plano envolvia:
- A proposta previa a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras, podendo chegar a R$ 1 bilhão.
- Prazo de 10 anos;
- Rentabilidade de cerca de 130% do CDI, muito acima do padrão de mercado.
– CDI = juros que bancos cobram entre si. É a principal referência da renda fixa no Brasil. Quanto maior o % do CDI, melhor o investimento. O CDI funciona como um “termômetro” dos juros no Brasil. Isso acontece porque ele acompanha de perto a taxa básica da economia, serve como referência para a maioria dos investimentos de renda fixa.
Na prática, a operação buscava dar fôlego imediato ao banco, transferindo o risco para a Caixa.
Negócio barrado por técnicos — e demissões
A operação, no entanto, não foi adiante. Em julho de 2024, a área técnica da Caixa Asset elaborou um parecer decisivo sobre uma operação envolvendo o Banco Master.
O parecer apontava:
- Alto risco de insolvência do Banco Master;
- Estrutura financeira de difícil compreensão;
- Incertezas relevantes quanto aos ativos, especialmente precatórios.
- O parecer foi categórico ao apontar problemas relevantes na operação, classificando-a como:
- Atípica em relação aos padrões de mercado;
- Com falta de clareza nas informações financeiras;
Diante desses pontos, os técnicos recomendaram a não realização do negócio.
No entanto, apenas quatro dias após a emissão do parecer, os principais responsáveis foram destituídos de seus cargos comissionados.
Embora não tenham sido demitidos da instituição, eles foram:
- Realocados para funções administrativas inferiores;
- Colocados em posições incompatíveis com suas qualificações técnicas.
Vale destacar que os profissionais possuem certificação CFA (Chartered Financial Analyst), uma das mais respeitadas do mercado financeiro internacional.
O parecer foi determinante para barrar o negócio. Posteriormente, segundo a narrativa apresentada, os responsáveis pela negativa teriam sido desligados de seus cargos — o que gerou questionamentos sobre possível interferência política na condução do caso.
Situação atual (2026) e principais envolvidos
Os técnicos diretamente impactados pelas decisões foram:
- Daniel Cunha Gracio;
- Maurício Vendruscolo;
- Leonardo Silva;
- Mariangela Fraga.
Entre eles, Gracio e Vendruscolo são apontados como os principais responsáveis pelo parecer técnico que recomendou a rejeição da operação.
O caso evoluiu para a esfera judicial e institucional.
- Daniel Gracio e Maurício Vendruscolo ingressaram com ações na Justiça do Trabalho, alegando que sofreram retaliação em razão do parecer técnico;
- O Ministério Público do Trabalho (MPT) abriu um inquérito para apurar possível perseguição aos profissionais;
- O Tribunal de Contas da União (TCU) também analisou o episódio e identificou indícios de comprometimento da governança da Caixa Asset em decorrência das exonerações.

(Prédio da Caixa Econômica Federal. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
O papel do TCU e a mudança de entendimento
Inicialmente, o Tribunal de Contas da União abriu investigação para apurar se o Banco Central teria sido omisso ou lento na supervisão do Banco Master.
Contudo, com o avanço das apurações, houve uma mudança de enfoque:
- Passou-se a questionar se o Banco Central teria sido rápido demais ao decretar a liquidação da instituição, ocorrida em 18 de novembro de 2025.
Apesar dessa reavaliação, os documentos indicam que o Banco Central:
- Atuou de forma gradual e preventiva;
- Tentou soluções alternativas antes da intervenção;
- Buscou evitar impactos sistêmicos maiores.

(Sede do Tribunal de Contas da União em Brasília-DF. Foto: Divulgação)
Estrutura financeira complexa e riscos elevados
Os relatórios também revelam fragilidades estruturais relevantes no Banco Master:
- Forte exposição a precatórios, com prazos incertos de recebimento;
- Operações financeiras complexas, com baixa transparência;
- Dificuldade de avaliação real dos riscos por investidores.
Além disso, o histórico reputacional da instituição e de seus executivos foi apontado como um fator que comprometia a confiança do mercado.
Conexões políticas e controvérsias
O caso também ganhou contornos políticos.
Entre os pontos levantados:
- A tentativa de operação com a Caixa ocorreu durante gestão indicada pelo governo federal, com influência de articulações políticas;
- A demissão de técnicos que barraram o negócio levantou suspeitas de interferência;
- Relações do banco com figuras públicas passaram a ser questionadas.
Outro ponto de destaque foi um contrato de alto valor envolvendo o banco e um escritório de advocacia ligado à família de uma autoridade pública. Posteriormente, surgiram questionamentos sobre a efetiva prestação dos serviços contratados.
Cronologia da crise
A sequência dos acontecimentos ajuda a entender o desenrolar do caso:
- Até 2023: funcionamento considerado normal;
- Primeiro semestre de 2024: início da deterioração financeira;
- Junho de 2024: perda de liquidez e tentativa de operação com a Caixa;
- Segundo semestre de 2024: intensificação das dificuldades;
- 2025: fracasso das alternativas e agravamento da crise;
- Novembro de 2025: liquidação oficial do Banco Master.
Um caso de alerta para o sistema financeiro
O episódio do Banco Master evidencia os desafios da supervisão bancária em cenários de risco crescente. Também expõe:
- A importância da atuação técnica na contenção de operações arriscadas;
- Os limites entre decisões econômicas e pressões políticas;
- A complexidade de intervir no momento adequado para evitar danos maiores.
A divulgação dos documentos reforça que havia sinais prévios claros — e que, apesar das tentativas de solução, a crise acabou se concretizando, deixando impactos financeiros e institucionais ainda em debate.
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