A Nova Geração do Judiciário: A Atuação da Juíza Dra. Katherine Ruellas em Luziânia-GO

🎙️ Podcast – Mais que Jurídico

Convidada: Dra. Katherine Ruellas (juíza de Direito da Vara de Violência Doméstica de Luziânia – GO)

Mais que Jurídico: Dra. Katherine, seja muito bem-vinda. Para começar, como surgiu o desejo de seguir a magistratura?

Dra. Katherine Ruellas:
Desde muito cedo. Eu sempre digo que meu sonho não era apenas cursar Direito, mas ser juíza. Não houve um fato específico que despertasse isso, simplesmente coloquei isso na minha cabeça ainda criança e segui com esse objetivo muito claro ao longo da vida.


Mais que Jurídico: Como foi sua trajetória acadêmica até a aprovação no concurso?

Dra. Katherine Ruellas:
Ingressei na faculdade de Direito em Franca, interior de São Paulo, aos 17 anos, e me formei por volta dos 21 ou 22. Assim que me formei, iniciei imediatamente a preparação para o concurso da magistratura. Foram cerca de cinco anos de estudo até a aprovação no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, aos 27 anos. Hoje já atuo há dois anos como juíza.


Mais que Jurídico: A senhora vem de uma família do meio jurídico?

Dra. Katherine Ruellas:
Não. Não tenho familiares na área jurídica. Venho de uma família de classe média, meu pai é médico, mas nunca houve influência direta do Direito dentro de casa. Isso mostra que é possível alcançar a magistratura mesmo sem uma tradição familiar na área.


Mais que Jurídico: O que esse caminho exigiu em termos pessoais?

Dra. Katherine Ruellas:
Muita renúncia. Abri mão de festas, viagens, aniversários, casamentos de amigos e de muito convívio familiar. Quando as pessoas veem alguém aprovado jovem, muitas vezes não percebem o quanto foi deixado para trás. Não é um caminho feito só de flores, há muitos espinhos antes, durante e depois da aprovação.


Mais que Jurídico: A senhora passou por outras comarcas antes de chegar a Luziânia?

Dra. Katherine Ruellas:
Sim. Minha primeira atuação foi em Porangatu, em uma vara mista no norte do estado. Depois atuei em Cocauzinho, onde ainda respondo, e posteriormente assumi a titularidade da Vara de Violência Doméstica em Luziânia.


Mais que Jurídico: Como tem sido a experiência na Vara de Violência Doméstica?

Dra. Katherine Ruellas:
É extremamente desafiadora. Luziânia possui números elevados de violência doméstica. Ao mesmo tempo em que fico feliz por ver mais mulheres denunciando — o que mostra maior confiança no sistema —, é muito triste perceber o quanto a violência é recorrente. Além disso, desde 2022, com novos entendimentos do STJ, a vara também passou a julgar crimes contra crianças, como estupro de vulnerável e maus-tratos.


Mais que Jurídico: Como lidar emocionalmente com esse tipo de demanda?

Dra. Katherine Ruellas:
Não é simples. A violência doméstica é, sem dúvida, uma das áreas que mais desgasta emocionalmente. Costumo dizer que ela suga um pouquinho da sua alma todos os dias. Terapia é fundamental para conseguir manter o equilíbrio e continuar exercendo a função com responsabilidade e humanidade.


Mais que Jurídico: A senhora acredita que a violência tem raízes culturais?

Dra. Katherine Ruellas:
Sem dúvida. Muitas vezes o agressor replica aquilo que viveu na infância. Crianças que crescem em ambientes violentos tendem a normalizar esse comportamento. Por isso, a violência doméstica vai muito além do Direito Penal; ela exige políticas públicas, educação e conscientização.


Mais que Jurídico: Qual sua visão sobre os grupos reflexivos para agressores?

Dra. Katherine Ruellas:
Acredito que os grupos reflexivos são muito mais eficazes do que penas em regime aberto. Eles promovem conscientização real e ajudam a romper o ciclo da violência, evitando que o agressor repita o comportamento em outros relacionamentos. Também defendo grupos para mulheres, para que entendam o ciclo da violência e consigam romper com ele.


Mais que Jurídico: A violência doméstica ainda é vista como um problema privado?

Dra. Katherine Ruellas:
Infelizmente, muitas pessoas ainda veem assim, mas isso é um equívoco. Violência doméstica é um problema de interesse público e de segurança coletiva. Não é algo que se resolve entre quatro paredes. Por isso, inclusive, a legislação evoluiu para tornar esses crimes de ação penal pública incondicionada.


Mais que Jurídico: A senhora enfrenta dificuldades por ser uma juíza jovem?

Dra. Katherine Ruellas:
Sim, enfrento uma dupla dificuldade: ser mulher e ser jovem. Já fui confundida com assessora ou assistente. Muitas vezes a pessoa entra em audiência sem disposição para respeitar. Por isso, precisamos nos impor mais e provar constantemente nossa capacidade profissional.


Mais que Jurídico: Como a senhora lida com situações de confronto em audiência?

Dra. Katherine Ruellas:
Com firmeza, mas sem agressividade. Costumo agir de forma calma e educada. Quando alguém entra exaltado, responder com serenidade costuma desarmar a situação. A autoridade não está no tom de voz, mas na postura.


Mais que Jurídico: A senhora acredita que mulheres precisam se provar mais no Judiciário?

Dra. Katherine Ruellas:
Sem dúvida. Muitas vezes, o mesmo ato praticado por um homem é elogiado, enquanto, se praticado por uma mulher, é criticado. Ainda há uma cobrança maior. Felizmente, com novas regulamentações do CNJ, a tendência é ampliar a presença feminina também nos cargos mais altos do Judiciário.


Mais que Jurídico: A condição social influencia o acesso às carreiras jurídicas?

Dra. Katherine Ruellas:
Influencia no ponto de partida. As pessoas não saem do mesmo degrau. Reconheço que minha condição permitiu dedicação exclusiva aos estudos, algo que muitos não têm. Por isso, não gosto do termo “meritocracia” de forma absoluta. Ainda assim, é possível chegar, mesmo que com mais tempo e mais esforço.


Mais que Jurídico: Que mensagem a senhora deixa para jovens que sonham com a magistratura?

Dra. Katherine Ruellas:
Que não desistam. Haverá muitas reprovações, muitos “nãos” e momentos de frustração. No concurso público, a regra é reprovar muito mais do que ser aprovado. Mas quem persiste, levanta e continua estudando, chega. O importante é saber onde se quer chegar.

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