Amor na era digital: conexões reais ou relações descartáveis?

🎙️ Entrevistadora: Ingrid Pitman
🌟 Convidada: Camila Pasquarelli (Palestrante / Psicóloga Clínica e Jurídica / Bacharel em Direito / Capelã / 8 especializações)

🎙️ Entrevista |

Ingrid Pitman:

Camila, quando começaram esses relacionamentos por aplicativos? Isso tem a ver com as gerações?

Camila Pasquarelli:

Totalmente. Cada geração se relaciona de um jeito.
Nossos pais viviam o namoro supervisionado, encontro na pracinha, baile, horário para voltar para casa.
Nós, millennials, pegamos a transição: MSN, chats, redes sociais.
Já a geração Z nasceu totalmente digital. Para eles, conhecer alguém pelo celular é natural.


Ingrid:

E hoje o maior símbolo disso tudo é o Tinder, né? Funciona mesmo?

Camila:

Funciona, sim. Conheço casais que se casaram e formaram família.
Mas também atendo pessoas que tiveram a vida emocional destruída por causa do aplicativo. Tudo tem lado positivo e negativo.

O problema é a cultura do “cardápio humano”: você acha que sempre pode encontrar alguém melhor e nunca se satisfaz com quem está conhecendo.


Ingrid:

Isso gera uma insatisfação constante, né?

Camila:

Exatamente. A pessoa nem dá tempo de criar vínculo.
Ela pensa: “é legal… mas talvez tenha alguém melhor”.
Isso impede conexões profundas e aumenta ansiedade, solidão e baixa autoestima.


Ingrid:

E tem também os golpes… Teve até documentário, lembra?

Camila:

Sim, o caso ficou famoso até no Fantástico.
Mas existem muitos golpes anônimos: histórias tristes, pedidos de dinheiro, chantagens emocionais.

Se a pessoa começa pedindo dinheiro ou favores logo no início, é um alerta vermelho. Relacionamento não começa com dívida.


Ingrid:

Você fala muito no consultório sobre ghosting. O que é isso?

Camila:

Ghosting é quando a pessoa simplesmente some. Bloqueia, desaparece, sem explicação.

E acontece dos dois lados: homens e mulheres.
O problema é que isso machuca o ego e reativa traumas de rejeição, principalmente em quem já tem histórico de abandono ou baixa autoestima.

Eu sempre digo: se levou ghosting, agradeça. Foi livramento.


Ingrid:

Muita gente fica mal de verdade, né? Ansiedade, depressão…

Camila:

Muito. A internet intensificou isso.
Hoje as pessoas buscam validação o tempo todo: curtidas, matches, aprovação.
Quando não recebem, sentem que não têm valor.

Se esses hábitos fossem tão saudáveis, por que os índices de ansiedade e depressão só aumentam?


Ingrid:

Você acha que a internet prejudicou os relacionamentos presenciais?

Camila:

Ela ajudou e atrapalhou.
Ajudou na comunicação, aproxima quem está longe, facilita a vida.
Mas também deixou as pessoas mais imediatistas, impacientes e preguiçosas para construir vínculos reais.

Antes a gente brincava na rua, encontrava amigos. Hoje os jovens estão isolados em telas.


Ingrid:

E no casamento? As redes sociais interferem?

Camila:

Interferem muito.
Elas dão a falsa sensação de que sempre existe alguém “melhor”.
Além disso, as pessoas comparam a vida real com a vida perfeita do Instagram.

Relacionamento sólido exige paciência, diálogo e construção diária. Não é descartável como um perfil que você arrasta para o lado.


Ingrid:

Então qual o equilíbrio ideal?

Camila:

Usar a internet com consciência.
Ela pode aproximar, informar, conectar famílias.
Mas não pode substituir o contato humano, o olho no olho, o vínculo verdadeiro.

Ferramenta boa é aquela que você controla — não a que controla você.