“Ceilândia: do preconceito ao orgulho” – Clemilton Saraiva fala sobre história, desenvolvimento e futuro da maior cidade do DF

Entrevistador: Peterson Martins
Convidado: Clemilton Saraiva (morador da Ceilândia, escritor, gestor público e ativista social)

A Ceilândia, maior região administrativa do Distrito Federal, completa 55 anos reafirmando sua força econômica, cultural e social. Muito além dos estigmas históricos, a cidade se consolidou como um dos principais polos de geração de renda e identidade popular do DF.

Em entrevista ao comunicador Peterson Martins, Clemilton Saraiva — morador da Ceilândia há quase cinco décadas, escritor, gestor público, advogado e pré-candidato a deputado distrital — fala sobre o livro “Ceilândia: do preconceito ao orgulho”, o potencial econômico da cidade e os desafios estruturais que ainda precisam ser enfrentados.

Peterson Martins: Clemilton, para começar, se apresente para o nosso público.

Clemilton Saraiva:
Eu sou morador da Ceilândia há 48 anos. Cheguei à cidade ainda jovem e praticamente cresci junto com ela. Sou formado em Engenharia, Filosofia e Direito, com especialização em Gerenciamento de Projetos nos Estados Unidos. Toda essa formação eu coloco hoje a serviço da cidade que me formou como cidadão.


Peterson: Como surgiu a ideia de escrever o livro “Ceilândia: do preconceito ao orgulho”?

Clemilton:
O livro nasceu de uma inquietação. As pessoas falavam da “CEI” — Campanha de Erradicação de Invasões — mas esqueciam da “Lândia”, que significa cidade. A Ceilândia sempre foi apresentada pelo viés do preconceito. Eu quis resgatar a história real, organizada, documentada, para que ela pudesse chegar às escolas e formar consciência nas novas gerações.

Peterson: A Ceilândia ainda sofre preconceito?

Clemilton:
O preconceito não vem do ceilandense, mas de quem nunca viveu a cidade. Muitas vezes se fala da Ceilândia pela “porta da delegacia”. Mas qualquer cidade com mais de 500 mil habitantes terá conflitos. A Ceilândia é muito maior do que isso. Ela é potência econômica, cultural e social.


Peterson: Falando em potência, você costuma destacar a força econômica da cidade. Pode explicar?

Clemilton:
Ceilândia movimenta algo entre 8 e 9 bilhões de reais por ano na economia do Distrito Federal. Temos mais de 19 mil empresas e mais de 50 mil microempreendedores individuais. É uma cidade autossustentável em muitos aspectos. O comércio é vibrante, os atacarejos são referência, e a economia criativa cresce a cada ano.


Peterson: Seu livro está sendo trabalhado nas escolas. Como tem sido essa experiência?

Clemilton:
Tem sido emocionante. Em 2025 realizamos um trabalho com alunos do Centro de Ensino Médio 10. Eles passaram um semestre estudando o livro e depois fomos dialogar. Muitos reconheceram seus pais e avós na história narrada. Isso gera pertencimento.


Peterson: Cultura também é uma marca forte da cidade?

Clemilton:
Sem dúvida. A Ceilândia tem movimento cultural permanente: hip hop, forró, piseiro, MPB, blocos, saraus, movimentos sociais. É uma cidade que respira cultura o ano inteiro, não apenas em eventos pontuais.


Peterson: Você já presidiu a Associação Comercial de Ceilândia. Como essa experiência influenciou sua visão política?

Clemilton:
Foram 12 anos de intenso diálogo com empresários, imprensa e movimentos sociais. Eu percebi que a cidade precisava ser defendida com dados, com números e com visão estratégica. Política, para mim, é ferramenta de transformação concreta.


Peterson: Hoje você é pré-candidato a deputado distrital. O que o motiva?

Clemilton:
Eu acredito que posso contribuir com planejamento, visão estratégica e compromisso real com a cidade. Se eleito, quero atuar principalmente em três eixos:

  • Ampliação da infraestrutura de saúde (novo hospital para a região);
  • Expansão do metrô e mobilidade urbana;
  • Fortalecimento da educação integral e da qualificação profissional.

Peterson: Quais os principais problemas estruturais que precisam ser enfrentados?

Clemilton:
Precisamos de melhor presença do Estado na segurança pública, descentralização administrativa para reduzir custos e melhorar eficiência, além de investimentos consistentes em infraestrutura urbana.


Peterson: Para finalizar, por que as pessoas deveriam confiar em você?

Clemilton:
Porque minha história está conectada com a história da cidade. Eu não quero ter “meu gabinete”. Quero construir “nosso gabinete”. Um mandato participativo, transparente e atuante.

A entrevista revela um retrato de uma Ceilândia que vai muito além dos estigmas. Entre memória, pertencimento e desenvolvimento econômico, a cidade se consolida como peça-chave no futuro do Distrito Federal.

Mais do que números, a fala de Clemilton Saraiva carrega uma narrativa de identidade coletiva: a transformação de uma cidade marcada pelo preconceito em símbolo de orgulho e potência popular.