Entrevistador: Humberto Roriz
Convidada: Alice Teles (Desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás)
No podcast Mais que Jurídico, o entrevistador Humberto Roriz recebeu a desembargadora Alice Teles, do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), para um bate-papo marcado por memórias, desafios e reflexões sobre a magistratura. Primeira mulher juíza a atuar em Luziânia, ela construiu uma carreira sólida no Entorno do Distrito Federal, enfrentando a violência da região, acompanhando a criação de novas comarcas e se tornando referência no combate à violência doméstica. Atualmente desembargadora e coordenadora da mulher em situação de violência doméstica no TJGO, Alice compartilha aprendizados de mais de três décadas na magistratura.
Humberto Roriz: Desembargadora, é uma honra recebê-la. A senhora construiu boa parte da sua carreira em Luziânia. Como foi chegar à comarca ainda muito jovem?
Alice Teles: Eu cheguei a Luziânia em 1995, com 25 anos. Foi minha terceira comarca — antes passei por Alto Paraíso e Padre Bernardo. Fui a primeira mulher juíza da cidade. Era um desafio enorme, porque além da pouca idade, havia a questão cultural. A cidade concentrava demandas de todo o Entorno, inclusive de municípios que ainda não haviam sido emancipados. A estrutura era precária, mas foi ali que amadureci como magistrada.
Humberto Roriz: A senhora acompanhou o desmembramento das cidades do Entorno. Como era a realidade da Justiça naquela época?
Alice Teles: Muito diferente de hoje. As comarcas foram criadas, mas não havia juízes suficientes. Os fóruns funcionavam em prédios improvisados. Testemunhas percorriam longas distâncias para audiências. O sistema era físico, tudo manual. Ver hoje cada comarca estruturada, com tecnologia e juízes suficientes, é motivo de orgulho.
Humberto Roriz: A violência na região era intensa, especialmente nos anos 2000. Como foi atuar nesse cenário?
Alice Teles: Foi um período muito crítico. Havia roubos diários, homicídios, violência doméstica. O sistema prisional era insuficiente. Enfrentamos rebeliões e fugas constantes. Era preciso firmeza, mas também equilíbrio. O juiz não pode agir por pressão social; deve julgar com base nas provas e na lei.
Humberto Roriz: A senhora hoje coordena a área da mulher no Tribunal. Como avalia a evolução após a Lei Maria da Penha?
Alice Teles: A mudança foi profunda. Antes da Lei Maria da Penha, os casos iam para os Juizados Especiais como crimes de menor potencial ofensivo. Hoje temos medidas protetivas em até 24 horas e tipificação do feminicídio. Mas ainda enfrentamos desafios culturais. A violência doméstica não diminuiu na mesma proporção que outros crimes. Precisamos investir em prevenção, educação e políticas públicas.
Humberto Roriz: O que ainda precisa avançar no combate à violência contra a mulher?
Alice Teles: Casas-abrigo são fundamentais. Muitas mulheres denunciam, mas não têm para onde ir. O Judiciário sozinho não resolve; é preciso atuação conjunta com Executivo e Legislativo. Trabalhamos em rede. A punição é necessária, mas a conscientização é essencial.
Humberto Roriz: Após 23 anos na área criminal, como foi migrar para a área cível e depois para o Tribunal?
Alice Teles: Foi um choque. Mudar de cidade, de área e passar a atuar em órgão colegiado exige adaptação. No colegiado, as decisões são construídas em conjunto. Isso enriquece o julgamento. Hoje atuo na 11ª Câmara Cível e vejo o quanto o diálogo entre desembargadores fortalece a Justiça.
Humberto Roriz: A senhora já viveu algum caso que marcou profundamente sua trajetória?
Alice Teles: Sim, especialmente no Tribunal do Júri. Há casos que nos abalam profundamente. Mas o magistrado precisa ter equilíbrio emocional para continuar julgando com responsabilidade. Cada decisão impacta vidas.
Humberto Roriz: Como manter o equilíbrio diante de tanta responsabilidade?
Alice Teles: Levo tudo com leveza. Faço atividade física, leio muito, viajo, valorizo a família. É importante separar vida profissional da pessoal. Também acredito muito na fé e na busca constante por sabedoria.
Humberto Roriz: Que mensagem deixa para os estudantes de Direito?
Alice Teles: Estudem muito. Não existe carreira fácil. Toda profissão exige dedicação, disciplina e vocação. A magistratura é uma responsabilidade enorme. É preciso humildade para ouvir, maturidade para decidir e coragem para enfrentar críticas. Quem deseja alcançar um objetivo deve lutar por ele.
Humberto Roriz: Após 33 anos de magistratura, qual legado deseja deixar?
Alice Teles: Quero ser lembrada como alguém que exerceu a função com seriedade, equilíbrio e humanidade. A Justiça não é feita por uma pessoa só, mas por uma rede de profissionais comprometidos. Se eu puder inspirar as novas gerações, já me sinto realizada.
Alice Teles encerra a entrevista reafirmando seu carinho por Luziânia e pelo Entorno, regiões que marcaram o início de sua trajetória e ajudaram a moldar sua visão de Justiça — firme, técnica e, acima de tudo, humana.









