🎙️ Podcast Mais que Jurídico
Entrevistador: Marcelo Nobis
Convidado: Professor e Doutor Robson Pedro
No episódio do Podcast Mais que Jurídico, o entrevistador Marcelo Nobis recebe o professor e doutor Robson Pedro para uma conversa densa, provocadora e, ao mesmo tempo, profundamente humana. Em um diálogo que transita entre trajetória pessoal, formação acadêmica, filosofia, direito, democracia e os desafios do mundo contemporâneo, o convidado compartilha reflexões que ultrapassam os limites da sala de aula e alcançam o próprio sentido da vida acadêmica e do Estado democrático de direito. Com uma narrativa marcada pela experiência, pela crítica e pela sensibilidade social, a entrevista revela por que o conhecimento, a moral e a liberdade seguem sendo pilares indispensáveis para a formação jurídica e cidadã no Brasil atual.
Marcelo Nobis:
Professor Robson, é uma alegria enorme recebê-lo aqui no Mais que Jurídico. A casa é sua. Não estamos ao vivo, então fique à vontade. Antes de entrarmos nas temáticas jurídicas e políticas — que eu prometo apertar um pouquinho — gostaria que você contasse aos nossos alunos e ouvintes um pouco da sua trajetória acadêmica. Sabemos que ela é longa, intensa e marcada por muitas formações. Quem é o Robson acadêmico?
Robson Pedro:
Marcelo, antes de tudo, muito obrigado pelo convite. Fico realmente feliz de estar aqui. Falar da minha trajetória acadêmica é falar da minha própria vida. Tenho hoje 47 anos e, curiosamente, minha matrícula acadêmica começou aos 3 anos de idade. Minha mãe me colocou como ouvinte na escola onde meu irmão estudava porque precisava trabalhar. Eu praticamente me alfabetizei antes de aprender a falar.
Toda a minha educação básica foi em escola pública, na periferia de Brasília — Ceilândia e Taguatinga — em uma realidade econômica muito difícil. E, desde então, nunca deixei de estudar. Não houve um único ano da minha vida em que eu não estivesse vinculado a algum processo educacional.
Marcelo Nobis:
E mesmo sendo um excelente aluno, você costuma contar que foi reprovado duas vezes. Isso sempre surpreende quem te conhece.
Robson Pedro:
É verdade. Reprovei duas vezes, e ambas por razões afetivas. Uma na oitava série e outra no primeiro ano do ensino médio. Eu sempre digo que não consigo separar o coração da razão. Quando me entrego, me entrego por inteiro. Isso é uma característica que me acompanha até hoje — seja nos estudos, seja na docência, seja na vida.
Marcelo Nobis:
E foi nesse período que surgiu a ideia da docência?
Robson Pedro:
Sim. Um amigo chamado Michel teve um papel decisivo. Ele enxergou em mim algo que eu mesmo não via. Foi ele quem me incentivou a fazer o curso normal, o magistério. Ele literalmente bateu na porta da minha casa, acordou meu pai, pegou meus documentos e me levou para fazer a inscrição. Ele passou em primeiro lugar, eu em segundo.
Esse momento mudou completamente a minha vida. Tudo o que construí — formação, família, profissão — nasce dessa decisão: tornar-me professor.
Marcelo Nobis:
Depois disso, sua trajetória acadêmica se torna impressionante. História, Filosofia, Pedagogia, Direito… Como isso se construiu?
Robson Pedro:
Foi tudo muito orgânico. Fiz História com muita dificuldade financeira. Precisei trancar matrícula, trabalhar, sustentar família. Depois vieram Filosofia, Pedagogia e agora o Direito. Paralelamente, fiz mestrado em Ciência da Religião, doutorado em Filosofia e dois pós-doutorados.
Meu mestrado nasce de uma inquietação profunda: entender o fenômeno religioso e sua influência política, jurídica e social. No doutorado, mergulho na ética, na moral e na filosofia do direito, especialmente na PUC-SP, um ambiente intelectualmente intenso, politizado e historicamente simbólico.
Marcelo Nobis:
Você sempre fala com muito carinho da PUC-SP.
Robson Pedro:
Porque foi uma experiência transformadora. Andar pelos corredores onde ainda estão preservadas as pichações da ditadura militar, conviver com grandes nomes do direito e da filosofia, perceber a universidade como um espaço vivo de pensamento crítico — isso muda qualquer pessoa.
Ali eu consolidei minha reflexão sobre liberdade, democracia e justiça. Minha tese dialoga com o iluminismo, o contratualismo e os fundamentos éticos do Estado democrático de direito.
Marcelo Nobis:
E isso se reflete diretamente na sua prática em sala de aula, né? Os alunos sempre comentam sobre sua proximidade.
Robson Pedro:
Porque eu me recuso a subir num pedestal. Eu piso o mesmo chão dos alunos. Muitos são os primeiros da família a ingressar no ensino superior. Eu sei o que isso significa. Se o professor se distancia, ele deixa de cumprir sua função social.
As disciplinas propedêuticas — ciência política, teoria do Estado, sociologia, antropologia jurídica — são a base de tudo. Não se constrói uma casa sem alicerce.
Marcelo Nobis:
Falando das suas obras: o primeiro livro dialoga muito com Kant, moral e religião. Qual é a ideia central?
Robson Pedro:
A ideia central é simples e profunda: o verdadeiro homem religioso é aquele que cumpre a moral. Kant não discute a existência de Deus, mas afirma que, se Deus existir, ele repousa na moralidade das ações humanas.
Pecado e crime se encontram exatamente na violação da moral. Cumprir a moral é cumprir o dever — independentemente de fé. Esse é o eixo do livro.
Marcelo Nobis:
E no segundo livro você avança para a democracia e a liberdade.
Robson Pedro:
Sim. Ali eu trato da crise da democracia contemporânea. Vivemos uma liberdade sem limites, distorcida, capturada pelo capitalismo e pelo carisma político. Hannah Arendt já alertava para a ruptura democrática produzida pela própria democracia.
Hoje, democracia e capitalismo são indissociáveis, e isso gera um sistema onde a segurança jurídica protege mais o mercado do que o cidadão.
Marcelo Nobis:
E isso se conecta com o que você chama de populismo constitucional?
Robson Pedro:
Totalmente. Vivemos uma era de hiperexposição, vaidade institucional e espetacularização do direito. O Judiciário virou palco. Juízes são humanos, influenciados pela mídia, pela opinião pública, pelo contexto social.
Quando decisões passam a responder mais ao aplauso do que à Constituição, o Estado democrático de direito entra em risco.
Marcelo Nobis:
Existe saída?
Robson Pedro:
Não tenho respostas fáceis. Mas acredito que algum nível de regulação das mídias e redes sociais será inevitável — não como censura, mas como proteção democrática e sanidade coletiva.
A democracia precisa de limites para sobreviver. Sem isso, ela se autodestrói.
Marcelo Nobis:
Para encerrarmos, que mensagem você deixa para nossos alunos?
Robson Pedro:
Estudem. Estudem muito. Questionem tudo. Não aceitem respostas prontas. O conhecimento é a única ferramenta capaz de dar dignidade, autonomia e liberdade real.
A vida é dura, mas o diálogo, o estudo e o pensamento crítico nos tornam maiores do que as circunstâncias. Conte comigo sempre.
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