Cíntia Quino transforma dor em propósito e cria o movimento Carimbo Pela Vida
Entrevistadora: Camila Pasquarelli
Convidada: Cíntia Quino (comunicadora, sobrevivente do câncer e fundadora do movimento Carimbo Pela Vida)
Com voz firme, fé inabalável e uma história marcada por superação, a comunicadora brasiliense Cíntia Quino compartilha uma trajetória que atravessa liderança comunitária, atuação cultural, maternidade, avó recém-inaugurada e, sobretudo, sobrevivência ao câncer.
Após enfrentar um diagnóstico de câncer avançado no colo do útero, complicações graves como trombose e sepse, e uma experiência de quase morte, Cíntia ressignificou sua dor e criou o movimento Carimbo Pela Vida, iniciativa que busca monitorar e incentivar a destinação de recursos públicos para a oncologia no Distrito Federal.
Em entrevista à Rádio Corredor, Cíntia fala sobre fé, rede de apoio, negligência, política pública e o compromisso de se tornar voz ativa dos pacientes oncológicos.
🎙️Entrevista
Camila Pasquarelli:
Cíntia, é um prazer receber você. Para começarmos, conta um pouco da sua trajetória na comunicação e como tudo começou.
Cíntia Quino:
Desde criança eu já era muito ativa. Organizava festa junina na minha rua, mobilizava vizinhos, montava barraquinhas. Depois adulta, percebi que aquela liderança já estava ali desde cedo. Cresci trabalhando com produção de eventos e cultura. Sempre gostei dos bastidores, mas o que me movia era ver o brilho no olhar de quem assistia ao espetáculo.
Também joguei vôlei por muitos anos. O esporte me ensinou algo essencial: ninguém vence sozinho. Trabalho em equipe é a base de tudo — inclusive da vida.
Camila:
Você se tornou avó recentemente. Como foi essa experiência?
Cíntia:
Ser avó é ser mãe com mel. O amor é diferente, é imensurável. O Teodoro nasceu em abril de 2024. Em setembro do mesmo ano, quando ele tinha seis meses, eu recebi o diagnóstico de câncer.
Ele não só me tornou avó, mas me deu ainda mais vontade de viver. Eu precisava estar aqui para vê-lo crescer.
Camila:
Como foi descobrir o câncer?
Cíntia:
Descobri por causa de uma dor de pedra no rim. Fiz uma tomografia e ali apareceu uma massa no colo do útero. Eu estava em negação. Achava que era mioma, que era aumento do útero.
Até que entrou no quarto uma médica oncologista. Quando eu li “oncologia” no crachá dela, senti a porrada. Ela foi direta: “Você tem um câncer avançado no colo do útero e precisa começar o tratamento imediatamente.”
Naquele momento, eu quase desabei. Mas quando minha irmã começou a chorar, algo mudou em mim. Eu disse: “Não chora. Eu sei o Deus que eu sirvo. Eu vou sair dessa e vou ajudar outras mulheres.”
Ali nasceu um propósito.
Camila:
A fé foi essencial nesse processo?
Cíntia:
Sem Deus eu não estaria viva. Eu digo que estou na minha segunda vida. Se a Bíblia estivesse sendo escrita hoje, meu milagre estaria lá.
Eu não chamo de protocolo. É estilo de vida. Foi a fé que me sustentou quando os médicos fizeram tudo o que podiam e ficaram esperando o corpo reagir.
Camila:
Você enfrentou complicações graves durante o tratamento, não foi?
Cíntia:
Sim. Tive duas infecções, duas desidratações e uma trombose. Depois, uma sepse com foco urinário que quase me matou.
Minha pressão chegou a 4 por 3. Fui para a sala vermelha. Lembro da luz passando enquanto empurravam a maca. Pensei que estava indo embora. Recebi noradrenalina na artéria para voltar.
Ali foi a divisão entre minha primeira e minha segunda vida.
Camila:
Você mencionou negligência médica nesse episódio. Como lida com isso hoje?
Cíntia:
Houve falha na vigilância após a retirada do cateter. Eu poderia ter morrido. No início, pensei em processar. Depois, agradeci por estar viva.
Mas isso me despertou ainda mais para a importância de olhar atento ao paciente oncológico. Ele não é um paciente comum. Precisa de cuidado redobrado.
Camila:
A rede de apoio fez diferença?
Cíntia:
Total. Rede de apoio faz parte da cura. Minha irmã cuidou de mim como mãe. Inventava comidas quando eu não conseguia comer. Buscava alternativas quando eu não conseguia beber água.
E eu só contei para o restante da família quando estava curada. Eu sabia que iria vencer.
Camila:
Como nasceu o movimento Carimbo Pela Vida?
Cíntia:
Nasceu da dor. Uma amiga que acompanhava meus vídeos também recebeu diagnóstico de câncer. Eu falava para ela que iria dar certo. Ela entrou na fila do SUS para iniciar tratamento.
E morreu esperando.
Aquilo me revoltou. A fila da oncologia é uma fila de morte. O tempo é rei.
Então eu decidi agir. O Carimbo Pela Vida é um movimento cidadão para monitorar e incentivar parlamentares a destinarem recursos carimbados especificamente para oncologia.
Sobre o Movimento
🎗️ Carimbo Pela Vida
É um movimento de monitoramento cidadão que busca garantir que verbas públicas destinadas à saúde sejam especificamente direcionadas para a oncologia, seja para custeio ou estrutura.
No Distrito Federal, são mais de 7 mil novos casos de câncer por ano. O movimento atua:
- Fiscalizando por meio da Lei de Acesso à Informação
- Conscientizando parlamentares
- Informando a população
- Incentivando o voto consciente em candidatos que investem na oncologia
Segundo Cíntia, o câncer é “perversamente democrático” — não escolhe classe, cor ou ideologia.
Camila:
Qual sua mensagem final?
Cíntia:
Quando um parlamentar carimba verba para oncologia, ele está carimbando pela vida do cidadão.
Mas quando um veículo de comunicação abre espaço para falar disso, também está carimbando pela vida.
Eu estou viva para ser voz de quem não pode falar. E acredito que o Distrito Federal pode se tornar referência nacional em tratamento digno para pacientes oncológicos.
Redes sociais
📲 Instagram pessoal: @cintiaquinoficial – https://www.instagram.com/cintiaaquinooficial/
📲 Movimento: @carimbopelavida









