“Promover Justiça é Servir”: A trajetória, os desafios e a fé de Dr. Asdear Salinas

Entrevistador: Humberto Roriz
Convidado: Dr. Asdear Salinas (promotor de Justiça da 5ª Promotoria de Planaltina)

Em uma conversa franca, profunda e humana, o promotor de Justiça Dr. Asdear Salinas, titular da 5ª Promotoria de Planaltina (GO), compartilhou sua trajetória profissional, os desafios enfrentados nos concursos públicos, sua experiência em regiões vulneráveis do Brasil e reflexões sensíveis sobre crimes sexuais, feminicídio e violência doméstica.

Da infância no Sul do país à atuação na região amazônica, passando pelo Nordeste Goiano e pelo entorno do Distrito Federal, Dr. Asdear revela que ser promotor vai muito além da técnica jurídica: é missão, é vocação e, sobretudo, é serviço à sociedade.

A entrevista foi conduzida por Humberto Roriz, que abordou temas como ética na atuação ministerial, estrutura do sistema de Justiça, proteção às vítimas, saúde mental de membros do Ministério Público e os desafios do Tribunal do Júri.

Humberto Roriz: Doutor, é uma honra recebê-lo. O senhor poderia começar contando um pouco da sua trajetória no Direito?

Dr. Asdear Salinas:
A honra é minha. Nasci no Paraná, mas cresci em Porto Alegre. Formei-me em Direito lá e iniciei minha carreira como escrivão judicial no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Depois, buscando algo menos burocrático e mais voltado à responsabilidade direta com a sociedade, decidi prestar concurso para o Ministério Público.

Fui aprovado como advogado da Caixa Econômica Federal e vim para Brasília. Trabalhei por dois anos e meio nos tribunais superiores, enquanto estudava intensamente para o Ministério Público. Passei por frustrações — inclusive reprovação em prova oral — mas perseverei. Fui aprovado nos MPs do Pará, Bahia e Goiás. Assumi primeiro no Pará e, depois, retornei para Goiás, onde atuo até hoje.


Humberto: Como foi atuar no Pará, especialmente em uma região amazônica?

Dr. Asdear:
Foi uma escola de vida. Trabalhei em Juruti, uma cidade isolada, com seis horas de barco até Santarém. Não havia estrutura adequada. Era eu e um assistente administrativo.

Enfrentei muitos júris, crimes graves, situações de violência sexual contra crianças e problemas ambientais envolvendo mineração. Também havia forte vulnerabilidade social. Foi uma experiência marcante, que moldou minha atuação como promotor.


Humberto: O senhor sentiu um grande choque cultural entre Sul, Norte e Centro-Oeste?

Dr. Asdear:
Sem dúvida. São realidades muito distintas. No Norte, percebi situações de pobreza extrema e uma cultura que, em alguns contextos, normalizava comportamentos que a lei brasileira considera crime, especialmente em relação a vulneráveis.

Essas experiências ampliaram minha visão humana e jurídica. Justiça precisa considerar o contexto, mas nunca relativizar a proteção dos mais frágeis.


Humberto: O senhor atuou muito na área da infância e juventude. O que mais marcou nesse período?

Dr. Asdear:
A adoção e os casos de abandono marcaram profundamente. Lembro de um casal que adotou quatro irmãos de uma só vez, incluindo uma criança com deficiência. Foi um gesto de amor extraordinário.

Por outro lado, vi adolescentes vítimas de abuso, drogas e abandono familiar. Muitas vezes, o comportamento agressivo ou rebelde é apenas reflexo de traumas profundos.


Humberto: Nos crimes sexuais, como equilibrar proteção à vítima e direito de defesa?

Dr. Asdear:
Esse é um dos maiores desafios. Precisamos garantir proteção processual à vítima, evitando revitimização. Ao mesmo tempo, o direito de defesa é constitucional.

Defendo perguntas abertas, postura ética e respeito absoluto à dignidade da vítima. Perguntas ofensivas ou que explorem o passado sexual sem pertinência devem ser barradas.

Mas também é necessário cuidado com acusações falsas. São raras, mas existem. Nesses casos, cabe responsabilização por denunciação caluniosa.


Humberto: O senhor acredita que a audiência presencial é melhor que a virtual nesses casos?

Dr. Asdear:
Em crimes graves, especialmente envolvendo vulneráveis, a audiência presencial permite maior percepção humana. A videoconferência tem vantagens logísticas, mas certos casos exigem presença física para melhor avaliação da prova.


Humberto: Como o senhor vê o aumento das penas em crimes como estupro de vulnerável?

Dr. Asdear:
As penas são altas, e com razão. Mas justamente por isso o nível de prova deve ser rigoroso. Não podemos condenar com base apenas em presunções. Ao mesmo tempo, não podemos permitir impunidade. É um equilíbrio delicado.


Humberto: O feminicídio é um dos crimes mais impactantes no Tribunal do Júri. Como o senhor encara esses casos?

Dr. Asdear:
São extremamente dolorosos. Muitas vezes há tentativa de desqualificar a vítima. Isso é inadmissível.

A atuação deve ser firme, mas ética. O plenário exige preparo técnico e emocional. O desgaste é enorme. A saúde mental dos promotores do júri precisa ser cuidada institucionalmente.


Humberto: Como o senhor lida com o peso emocional da profissão?

Dr. Asdear:
Leitura, cinema e, principalmente, convivência com minhas filhas. Tento estar presente na vida delas. Também sou uma pessoa de fé, e isso me sustenta.


Humberto: Que mensagem o senhor deixaria aos estudantes de Direito?