Entrevistador: Dr. Humberto Roriz
Entrevistado: Jacó Santos Pereira (chefe da sessão operacional do Quinto Comando Regional, professor universitário e autor de livros na área jurídica)
No podcast Mais que Jurídico, o capitão da Polícia Militar de Goiás Jacó Pereira, professor universitário e autor de obras jurídicas, participou de uma longa conversa sobre segurança pública, criminalidade, papel do Estado e formação de valores na sociedade.
Com experiência na área operacional da Polícia Militar e atuação também na área jurídica, Jacó compartilhou reflexões sobre políticas públicas, desarmamento, estrutura familiar e estratégias para enfrentar o crime no Brasil.
Entrevista
Trajetória na Polícia Militar
Pergunta: Capitão, conte um pouco sobre sua trajetória na Polícia Militar.
Jacó Pereira:
Eu entrei na Polícia Militar em 2002 como sargento. Naquela época a instituição tinha três portas de acesso: soldado, sargento ou oficial. Depois fiz outro concurso e me tornei oficial, chegando ao posto de capitão.
Hoje trabalho no Quinto Comando Regional da Polícia Militar de Goiás, que cuida da segurança do entorno sul do Distrito Federal. É uma área grande, com alta densidade populacional e muitos desafios.
Atualmente atuo como chefe da seção operacional do comando e também presto uma espécie de consultoria jurídica interna para o comando regional.
Estatuto do Desarmamento e segurança pública
Pergunta: Como falar em prevenção ao crime quando o cidadão de bem está desarmado e o criminoso continua armado?
Jacó Pereira:
Quando entrei na polícia, em 2002, o porte ilegal de arma de fogo era apenas uma contravenção penal. A pessoa era conduzida à delegacia e muitas vezes resolvia a situação com transação penal.
Mas em 2003 entrou em vigor o Estatuto do Desarmamento, que mudou o cenário. O flagrante passou a gerar processo criminal.
Eu tenho algumas ressalvas sobre o estatuto. Na minha visão ele promoveu um desarmamento seletivo. As organizações criminosas continuaram armadas, enquanto o cidadão comum perdeu parte da possibilidade de autodefesa.
Isso gera um paradoxo: o Estado restringe o direito de defesa e depois se pergunta por que a criminalidade continua crescendo.
Linguagem e debate sobre criminalidade
Pergunta: O debate sobre segurança pública mudou nos últimos anos?
Jacó Pereira:
Hoje vemos um fenômeno que eu chamo de instrumentalização da linguagem. Muitas vezes a discussão deixa o plano concreto e vai para o plano das palavras.
O sociólogo Pierre Bourdieu fala sobre a “eufemização do vernáculo”, ou seja, usar palavras suaves para esconder realidades duras.
Por exemplo: em vez de preso, fala-se “pessoa em situação de encarceramento”. Enquanto se discute a etiqueta das palavras, o problema real da criminalidade continua sem solução.
Família e origem da criminalidade
Pergunta: Na sua visão, qual a principal origem da criminalidade?
Jacó Pereira:
Um estudo do economista e pensador americano Thomas Sowell aponta que a criminalidade não está diretamente ligada à raça ou à renda.
Segundo ele, um dos fatores mais fortes é a desestruturação familiar, especialmente a ausência da figura paterna.
Nas comunidades mais pobres, famílias com pai e mãe presentes tendem a ter índices muito menores de envolvimento dos filhos com o crime.
Quando a estrutura familiar se rompe, abre-se um caminho para problemas sociais e, muitas vezes, para a delinquência.
A crise da autoridade
Pergunta: O senhor fala muito sobre perda de autoridade. Como isso influencia a sociedade?
Jacó Pereira:
Vivemos uma espécie de diluição da figura da autoridade.
Antigamente havia mais respeito às figuras institucionais: professores, pais, médicos, policiais.
Hoje todo mundo quer ser autoridade ao mesmo tempo. Isso acaba gerando confusão social e enfraquecimento das referências.
No ambiente familiar, por exemplo, pai e mãe precisam exercer autoridade. Isso não significa violência, mas imposição de limites e orientação moral.
A teoria da “janela quebrada”
Pergunta: Pequenos crimes influenciam crimes maiores?
Jacó Pereira:
Sim. Existe uma teoria conhecida como “teoria da janela quebrada”, que mostra que a tolerância a pequenas infrações cria um ambiente propício para crimes mais graves.
Um exemplo clássico é a perturbação do sossego.
Muitas pessoas acham que é algo sem importância, mas ela pode ser o primeiro passo de conflitos maiores entre vizinhos, que às vezes evoluem para agressões e até homicídios.
Por isso é importante combater tanto o crime violento quanto as pequenas infrações.
Estratégia para enfrentar o crime
Pergunta: Qual seria a estratégia mais eficaz para combater a criminalidade?
Jacó Pereira:
O Estado precisa atuar em duas frentes:
- Combater com firmeza o crime violento:
tráfico de drogas, armas, organizações criminosas. - Não negligenciar pequenas infrações:
porque elas criam ambiente de desordem.
O Estado possui o monopólio da força, e essa força precisa ser utilizada quando necessário para manter a ordem pública.
Câmeras corporais em policiais
Pergunta: O que o senhor pensa sobre câmeras corporais na polícia?
Jacó Pereira:
É um debate importante, mas precisa ser feito com equilíbrio.
Se o objetivo é fiscalização, então é preciso discutir se todos os agentes públicos deveriam ser fiscalizados da mesma forma, e não apenas o policial.
Não se pode partir do pressuposto de que o policial é um criminoso em potencial.
Os livros de Jacó Pereira
Durante a entrevista, o capitão também falou sobre suas obras.
Entre elas está o livro “Chega de apanhar, comece a vencer – Seu tempo é agora”, voltado especialmente para estudantes e candidatos a concursos públicos.
A obra aborda temas como:
- organização pessoal;
- disciplina;
- foco nos estudos;
- construção de propósito na vida profissional.
A importância da organização
Jacó Pereira:
A ordem é a base do progresso. Basta olhar para a própria bandeira do Brasil: “Ordem e Progresso”.
O filósofo Heráclito dizia que o universo é governado por um “logos”, uma ordem racional.
Uma pessoa organizada vive de acordo com essa lógica do mundo. Já a desorganização gera ansiedade, confusão mental e perda de produtividade.
Organizar o próprio ambiente e a própria vida é um passo essencial para o sucesso.
Mensagem final aos estudantes de Direito
Pergunta: Qual mensagem o senhor deixa para quem quer seguir carreira jurídica ou prestar concursos?
Jacó Pereira:
Eu estava lendo a biografia de Benjamin Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos. Ele criou 13 mandamentos pessoais ainda jovem.
Um deles dizia:
“Imite Jesus e Sócrates.”
Ou seja, busque sabedoria, virtude, honestidade e amor ao próximo.
Se a pessoa seguir esses valores, trabalhar com disciplina e propósito, certamente terá uma vida útil e digna, contribuindo para o país.
A entrevista com o capitão Jacó Pereira revela uma visão que combina experiência policial, reflexão filosófica e formação jurídica.
Ao abordar temas como desarmamento, autoridade, estrutura familiar e pequenas infrações, ele defende que o enfrentamento da criminalidade exige equilíbrio entre força estatal, educação social e fortalecimento da família.
Para ele, a transformação começa tanto nas políticas públicas quanto nas atitudes individuais — organização, responsabilidade e compromisso com valores éticos.
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