🎙️ Entrevista – Mais que Jurídico
Entrevistador: Dr. Humberto Roriz
Convidado: Dr. Renato Teatine (ex-servidor da Controladoria-Geral da União (CGU) e promotor de justiça do Ministério Público do Estado de Goiás)
Em um sistema de Justiça marcado por desafios estruturais, desigualdades sociais e decisões que impactam diretamente a vida das pessoas, poucas trajetórias conseguem traduzir com tanta clareza a distância entre a teoria jurídica e a realidade brasileira quanto a do promotor de justiça Renato Teatine.
Ex-servidor da Controladoria-Geral da União (CGU), aprovado em diversos concursos públicos e atualmente integrante do Ministério Público de Goiás, Dr. Renato compartilha uma visão construída não apenas nos livros ou nos tribunais superiores, mas principalmente no contato direto com o Brasil real: o interior, a pobreza, a violência doméstica, o abuso infantil e as limitações do próprio Estado.
Nesta entrevista ao podcast Mais que Jurídico, conduzida pelo Dr. Humberto Roriz, o promotor revisita sua trajetória pessoal e profissional, desmonta mitos sobre concursos públicos, critica a seletividade da Justiça, defende a humanização das instituições e revela como a atuação no Ministério Público transformou sua percepção sobre o Direito, o poder e a responsabilidade de quem exerce funções essenciais à sociedade.
Dr. Renato, como começou sua trajetória no Direito? Houve alguma influência familiar?
Curiosamente, não. Não tenho parentes do Direito. Meu pai e meu irmão são veterinários, e esse foi meu primeiro caminho. Iniciei a faculdade de Veterinária, primeiro na UFG e depois na UnB, onde permaneci por cerca de três anos.
No entanto, durante a graduação, percebi que não tinha vocação. A morte do meu pai, em 2004, também foi um divisor de águas. Foi nesse período de incertezas que decidi estudar para concursos públicos — inicialmente sem saber exatamente para qual carreira.
E foi nesse momento que o Direito entrou na sua vida?
Exatamente. Estudando para concursos de nível médio, comecei a ter contato com o Direito e me apaixonei. Prestei diversos concursos e fui aprovado no Tribunal Superior Eleitoral, em 2007, como técnico judiciário. Isso me permitiu trabalhar e cursar Direito ao mesmo tempo, no UniCEUB.
Depois, fui aprovado como analista no TRF, onde trabalhei diretamente com juízes e desembargadores. Ali tive contato prático e profundo com o Direito. Em seguida, ingressei como auditor na CGU.
Por que deixou a CGU para estudar para o Ministério Público?
Apesar da relevância da CGU, senti falta de independência funcional. Trabalhei em casos complexos, inclusive envolvendo figuras políticas, mas vi processos prescreverem mesmo após relatórios robustos. Aquilo me frustrou profundamente.
Percebi que precisava de uma instituição que me desse autonomia real para agir. Foi aí que decidi estudar para o Ministério Público.
Sua trajetória em concursos impressiona. Qual o segredo para tantas aprovações?
Não existe fórmula mágica. O principal é disciplina. Concurso é fila: quem estuda mais, fura a fila. Prova objetiva é quase matemática — quem estuda mais, passa.
Eu revisava a lei seca inúmeras vezes. Enquanto alguns colegas liam uma vez, eu lia dez. Não sou uma pessoa com memória extraordinária, mas justamente por isso eu revisava muito.
Então não existe método milagroso?
Não. Método é pessoal. Uns gostam de resumo, outros de anotar aula. Eu assistia aulas aceleradas, lia muita lei seca e resolvia muitas questões.
O que realmente faz diferença é abrir mão de coisas. Enquanto meus concorrentes viajavam, iam a festas, eu estudava. Isso não é romantização, é realidade.
O senhor passou por mais de um Ministério Público antes de chegar a Goiás. Como foi essa experiência?
Fui aprovado no Ministério Público do Paraná e atuei por cerca de três anos e meio no interior. Foi uma experiência transformadora.
Ali conheci o Brasil real. O interior, mesmo em estados ricos, enfrenta problemas sérios: violência doméstica, abuso infantil, tráfico, pobreza estrutural. Brasília é uma bolha — só percebi isso quando saí dela.
O senhor atuou na área da infância e juventude. Algum caso o marcou profundamente?
Infelizmente, muitos. Mas os casos de abuso sexual infantil são os que mais me abalam. Especialmente porque, na maioria das vezes, o agressor é alguém da família — pai, padrasto, avô.
O mais chocante é que, em grande parte dos casos, a mãe acaba ficando ao lado do agressor. Isso destrói emocionalmente a criança e dificulta a responsabilização penal.
O que pode ser feito para combater esse tipo de crime?
Educação e rapidez. Criamos redes de proteção envolvendo escolas, conselhos tutelares, saúde e assistência social. A escola é o principal local de revelação desses crimes.
Quanto mais cedo a criança é ouvida, maior a chance de romper o ciclo de violência. Justiça tardia, nesses casos, é conivência involuntária.
Na sua visão, o sistema de justiça brasileiro é justo?
Ele é profundamente desigual. No Brasil, o pobre cumpre pena; o rico cumpre recursos.
Temos uma justiça seletiva. Quem tem dinheiro acessa recursos infinitos e, muitas vezes, a prescrição. Quem não tem, fica preso preventivamente e sequer sabe que pode recorrer.
Isso compromete a credibilidade do sistema?
Sem dúvida. Quando crimes graves não geram resposta efetiva, a sociedade perde a confiança e começa a flertar com a justiça pelas próprias mãos.
Sem responsabilização real, não há efeito pedagógico. E isso vale inclusive para membros do próprio sistema de justiça.
O que o senhor mudaria para tornar a Justiça mais humana?
Aproximação com a sociedade. Projetos que levam o Judiciário e o Ministério Público para fora dos fóruns fazem toda a diferença.
Somos servidores públicos, empregados da sociedade. Precisamos ouvir, prestar contas e compreender a realidade das pessoas que atendemos.
Qual foi a maior lição que o Ministério Público lhe trouxe?
Conhecer o Brasil real. Isso muda tudo.
Hoje sou mais grato, mais consciente e mais comprometido. Saber que, com diálogo e atuação firme, é possível melhorar a vida de pessoas vulneráveis — garantindo remédios, alimentação, dignidade — é o que dá sentido à função.
E fora do trabalho, como o senhor cuida da saúde mental?
Hoje, principalmente com família e viagens. Futebol ficou para trás por causa do joelho. Atividade física virou obrigação.
Tenho dois filhos pequenos, então grande parte do tempo livre é dedicado a eles — e isso também é uma forma poderosa de equilíbrio.
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