🎙️Podcast – Mais que Jurídico
Entrevistador: Dr. Humberto
Convidado: Jean Cléber Zamperlini (Promotor de Justiça de Luziânia-GO)
Com quase duas décadas de atuação no Ministério Público de Goiás, o promotor de Justiça Jean Cléber Zamperlini construiu sua trajetória enfrentando alguns dos cenários mais complexos da área criminal no Entorno do Distrito Federal. Da sobrecarga estrutural dos primeiros anos à condução de casos de grande repercussão social, sua experiência revela um olhar técnico, humano e crítico sobre o sistema penal brasileiro. Nesta entrevista ao podcast Mais que Jurídico, Jean Cléber fala sobre vocação, desafios institucionais, mudanças legislativas, combate ao crime, políticas públicas e a importância da humildade na formação dos novos operadores do Direito — em uma conversa que vai muito além da letra fria da lei.
Entrevistador – Dr. Humberto:
Dr. Jean Cléber, é uma honra recebê-lo no podcast Mais que Jurídico. O senhor tem uma trajetória respeitada no Ministério Público de Goiás e uma ligação muito forte com a região do Entorno. Para começarmos, conte para nós: por que o senhor escolheu o Direito e, especialmente, a carreira no Ministério Público?
Jean Cléber:
Primeiramente, agradeço muito o convite. É um prazer estar aqui. Curiosamente, o Direito não foi uma paixão imediata. Nos três primeiros anos de faculdade, confesso que foi bastante difícil. A escolha veio muito mais por exclusão do que por vocação. Meu sonho inicial era ser engenheiro químico, eu sempre fui muito bom em química na escola.
Venho de uma família simples, meus pais são semialfabetizados, não havia tradição jurídica. Acabei optando pelo Direito e, com o tempo, principalmente a partir do quarto ano, comecei a entender melhor o papel da Justiça. A carreira no Ministério Público surgiu depois, quando percebi que ali eu teria liberdade funcional para agir com responsabilidade, consciência e equilíbrio — algo essencial para mim.
Dr. Humberto:
O senhor ingressou no Ministério Público em um período extremamente crítico, especialmente na região do Entorno. Como foi esse início?
Jean Cléber:
Foi muito difícil. Entrei em 2007, quando o Ministério Público enfrentava um déficit enorme de promotores. Comecei como promotor substituto em Valparaíso de Goiás e encontrei uma realidade caótica. Havia pilhas de processos, centenas com vista, audiências diárias, presídio superlotado e uma estrutura muito precária.
Cheguei a acumular Valparaíso e Luziânia por 45 dias, praticamente sozinho, com vários juízes atuando. Foi um período extremamente desgastante, mas também formador. Aquilo cria uma “casca”. Você aprende a decidir, a priorizar e a lidar com pressão real.
Dr. Humberto:
Em meio a tantos desafios, o senhor passou por experiências marcantes no combate ao crime organizado. Algum caso se destaca?
Jean Cléber:
Sim, vários. Um dos mais difíceis foi um latrocínio ocorrido em uma casa lotérica de Luziânia, um crime brutal, filmado, que chocou toda a região. A vítima, Cleiton, era uma pessoa muito querida. O processo foi extremamente complexo: provas circunstanciais, interceptações telefônicas, pressões externas, advogados experientes e muita comoção social.
Foi um caso que exigiu não apenas técnica jurídica, mas equilíbrio emocional. Houve, inclusive, um trabalho sensível com a família de um dos envolvidos para que ele se entregasse, evitando uma tragédia ainda maior.
Dr. Humberto:
Ao longo desses anos, o senhor acompanhou profundas mudanças no Direito Penal. Como avalia esse processo?
Jean Cléber:
Vejo avanços e retrocessos. No tráfico de drogas, por exemplo, houve um claro afrouxamento penal desde a Lei de 2006, com a criação do tráfico privilegiado. Já nos crimes patrimoniais, especialmente o roubo, o Estado endureceu muito — e com razão.
Hoje, um roubo pode gerar uma pena maior do que crimes gravíssimos, dependendo das circunstâncias. Isso se explica porque o roubo afeta diretamente a sensação de segurança coletiva. Ele interfere no direito básico de ir e vir.
Dr. Humberto:
E quanto ao Acordo de Não Persecução Penal (ANPP)? Qual sua visão prática?
Jean Cléber:
Vejo como um dos maiores avanços do sistema penal recente. O ANPP permite uma resposta rápida, eficaz e proporcional. Retira do Judiciário processos que não precisam seguir até o fim e oferece reparação imediata à vítima.
Já vi casos em que a vítima saiu da Promotoria satisfeita, ressarcida, e o autor do fato verdadeiramente impactado pelo funcionamento rápido do Estado. A reincidência nesses casos é baixíssima.
Dr. Humberto:
O senhor também tem uma visão crítica sobre o sistema prisional. Poderia comentar?
Jean Cléber:
Claro. A prisão, sozinha, não regenera ninguém. O que regenera é oportunidade. Trabalho, dignidade, vínculo social. A maioria das pessoas que comete um crime não é “cliente habitual” do sistema prisional. Basta um dia preso para nunca mais querer voltar.
Mas existe uma minoria que se adapta ao cárcere e não consegue mais viver em sociedade. Para esses casos, o Estado precisa ser firme. Para os demais, políticas públicas de reinserção são urgentes — e infelizmente ainda muito tímidas.
Dr. Humberto:
Falando em temas sensíveis, como o senhor vê a descriminalização das drogas decidida pelo Supremo?
Jean Cléber:
Com muita cautela. A grande contradição é simples: se portar droga não é crime, quem fornece essa droga? A conta não fecha. Esse é um debate que deveria ter sido amadurecido no Congresso Nacional, não resolvido judicialmente.
Não se trata de moralismo, mas de coerência normativa e política pública séria.
Dr. Humberto:
O senhor já mencionou em outras falas a questão da maioridade penal. Qual sua posição?
Jean Cléber:
A sociedade brasileira clama por mudanças. Se fosse submetido a plebiscito, não tenho dúvidas de que a redução da maioridade penal seria aprovada. Em crimes extremamente graves, com discernimento comprovado, o adolescente deveria responder como adulto.
Outros países já lidam com isso de forma mais objetiva, analisando o crime e não apenas a idade.
Dr. Humberto:
Depois de tantos casos difíceis, como o senhor cuida da saúde mental?
Jean Cléber:
Atividade física é indispensável para mim. Pratico regularmente há mais de 15 anos. Hoje faço CrossFit e sou completamente apaixonado por futebol — de forma quase obsessiva (risos). Isso me ajuda a descarregar o peso emocional da profissão.
Além disso, faço leituras fora do Direito. É essencial ter algo na vida que não envolva processo, dinheiro ou conflito.
Dr. Humberto:
Para encerrar, que mensagem o senhor deixa para estudantes e jovens operadores do Direito?
Jean Cléber:
Uma palavra: humildade. Humildade para reconhecer que você não sabe tudo, para aprender com quem veio antes, para perguntar sem medo.
Nem todo mundo vai passar em concurso — e tudo bem. Existe vida fora disso. Dá para ser feliz na advocacia, na docência, em outras áreas. O importante é fazer o caminho com honestidade intelectual e respeito às pessoas.
Dr. Humberto:
Por fim, o senhor indicaria alguém para participar de uma próxima edição do Mais que Jurídico?
Jean Cléber:
Sim, o Dr. Julimar. Ele tem uma história de vida extraordinária, começou trabalhando na roça, foi feirante, bancário, e hoje é promotor de Justiça. Uma trajetória inspiradora que certamente vai impactar quem está começando.
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